Valorização da Profissão

Pode parecer bobagem para algumas profissões a necessidade tão veemente de lutar pela sua valorização, o que não é o caso da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional. Há muito vivenciamos grandes dificuldades em fazer valer nossa autonomia como profissionais e também para garantir condições de trabalho e de remuneração justos, fato este que se instensifica na atualidade ao consideramos o embate público X privado na saúde deste país e próprio movimentos das Operadoras de Planos de Saúde neste tema.

O Crefito 4, associado ao SINFITO, SEMPREFITO e AMF vem nos convidando (intimando, seria mais adequado) a participar de um movimento de valorização da nossa profissão, haja vista o quadro anteriormente traçado em linhas gerais.

Transcrevo as linhas do Dr Anderson Luís Coelho, diretor secretário do Crefito 4, autor da página “FisioTerapia em Foco” e um dos mentores deste movimento, para que cada um de nós possamos refletir.

“Nestes últimos dois anos em que entrei para a gestão do CREFITO-4 como diretor-secretário, tenho observado diversas necessidades das profissões de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional e de seus profissionais.

Antes de entrar propriamente no assunto contido neste texto, gostaria de pedir a licença daqueles que já têm esses conceitos bem definidos, para elencar abaixo as principais diferenças legais entre as instituições de classe, pois observo que muitos desconhecem integralmente essa questão e ficam sem saber a quem recorrer para cada tipo de demanda.

O Sistema COFFITO/CREFITOs foi criado pela Lei Federal nº 6.316/75 como um sistema autárquico federal em defesa da sociedade contra o exercício ilegal e/ou irresponsável das profissões de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional. Dessa forma, caracteriza-se pela personalidade jurídica de direito público, autonomia administrativa e patrimonial, competindo ao COFFITO a legitimidade para normatizar, supervisionar e disciplinar a profissão e funcionar como Tribunal Superior de Ética; e aos CREFITOs cabe a competência legal para fiscalizar o exercício profissional em suas respectivas áreas jurisdicionais, cumprir e fazer cumprir as disposições das leis, resoluções e normas baixadas pelo Federal e funcionar como Tribunal Regional de Ética. Dessa forma, o CREFITO-4 tem como área de jurisdição o Estado de Minas Gerais, com seus 853 municípios.

Para reivindicações trabalhistas, temos os Sindicatos, pois a eles competem a fixação do piso salarial e o policiamento de seu cumprimento, a fixação das datas bases das categorias, insalubridades, periculosidades e jornadas de trabalho. Em Minas Gerais, temos o Sindicato dos Profissionais Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais (SINFITO-MG) e o Sindicato das Empresas Prestadoras de Serviços de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (SEMPREFITO-MG).

Já às Associações cabem os problemas sociais e os aprimoramentos culturais e científicos do profissional. Especificamente em Minas Gerais, além de associações municipais ou regionais, temos a tradicional Associação Mineira de Fisioterapeutas (AMF) desde 1968, ou seja, criada um ano antes da própria regulamentação da profissão no país pelo Decreto-Lei nº 938/69.

Existem no Estado, ainda, algumas cooperativas, que têm a finalidade de reunir pessoas que pretendem o desenvolvimento profissional cujo fomento, organização e remuneração são definidos e regulados pela entidade cooperativa. Os instituidores e cooperados submetem a essa organização a busca e realização de contratos com outras pessoas, que são as destinatárias do trabalho prestado, no caso, serviços de Fisioterapia e Terapia Ocupacional.

Assim como vários colegas, enquanto estive do “lado de fora” do Sistema COFFITO/CREFITOs, me questionei por que o CREFITO não fazia isso ou aquilo, mas entendi, entre os princípios da administração, o princípio da legalidade objetiva, segundo o qual a administração só pode fazer aquilo que a lei determina, sob consequência de invalidade de seus atos, situação esta que se opõe ao cidadão, que tudo pode fazer desde que não esteja proibido por lei. Esse princípio tem fundamento constitucional no artigo 37, caput, da Constituição Federal, in verbis: “Artigo 37 – A Administração Pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.”

Portanto, mesmo que a diretoria do CREFITO-4 observe as necessidades da profissão e dos profissionais, esta autarquia federal não pode atuar, por força de lei, em relação a algumas demandas. Contudo, descobrimos algumas formas de auxiliar quem pode agir nesses casos, as entidades de classe, o que vou contextualizar mais adiante.

Desde 1998, já temos o Referencial Nacional de Honorários Fisioterapêuticos (RNHF). Entretanto, sua implementação não obteve o êxito desejado, o que agravou as condições do sistema de saúde no que tangem as assistências fisioterapêutica e terapêutica ocupacional.

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Percebemos, em levantamento primário em Minas Gerais, que a grande maioria dos serviços, especialmente de Fisioterapia, trabalha saúde suplementar, já que as peculiaridades da Terapia Ocupacional são bem diferentes nesse nicho. E o que mais torna complexa essa relação é que a política remuneratória adotada pelas Operadoras de Planos de Saúde (OPS) não contemplou a sustentabilidade econômico-financeira desses serviços, levando a um prejuízo na qualidade assistencial.

Apenas em janeiro de 2000, pela Lei 9.961, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi criada para regulamentar e fiscalizar a saúde suplementar. De lá para cá, resoluções normativas da ANS vieram estabelecer os requisitos para a celebração dos instrumentos jurídicos (contratos) entre OPS e Prestadores, tais como: RN nº 42/2003 (com prestadores de serviços hospitalares), RN nº 54/2003 (com prestadores de SADT e clínicas ambulatoriais) e RN nº 71/2004 (com profissionais de saúde ou pessoas jurídicas que prestam serviços em consultórios).

Vale ressaltar que a ANS não regulamenta e/ou fiscaliza os valores praticados, apenas regulamenta a forma de contratualização, ficando livre a negociação entre os particulares (OPS e Prestadores) dos valores dos serviços contratados.

Para tanto, a Agência publicou também a RN nº 124/2006, que dispõe sobre a aplicação de penalidades para as infrações à legislação dos planos privados de assistência à saúde, que tem previsão de sanção e penalidade, em seu artigo 43, para aquele que deixar de cumprir as regras para a formalização dos instrumentos jurídicos firmados com pessoa física ou jurídica prestadora de serviço de saúde.

Não é regra geral, mas muitos profissionais, considerando os valores praticados pelas OPS a que se submeteram, foram também diminuindo os valores da prestação de serviços à particular e, para conseguirem uma pseudo sustentabilidade econômico-financeira de suas empresas/serviços, iniciaram os atendimentos em larga escala.

O COFFITO publicou, em 2009, a Resolução COFFITO nº 367, que adota o Referencial Nacional de Honorários Fisioterapêuticos (RNHF), e a Resolução COFFITO nº 368, que adota o Referencial Nacional de Honorários Terapêuticos Ocupacionais (RNHTO), como padrões mínimos remuneratório-deontológicos para o exercício profissional do fisioterapeuta e do terapeuta ocupacional, baseando-se na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF); em 2011, publicou a Resolução COFFITO nº 387, que estabelece os Parâmetros Assistenciais Fisioterapêuticos nas diversas modalidades prestadas pelo fisioterapeuta; e, em 2012, a Resolução nº 418, que estabelece os Parâmetros Assistenciais Terapêuticos Ocupacionais.

Muitas operadoras não se adequaram às exigências impostas pelo COFFITO aos profissionais e prestadores de serviços de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional com essas resoluções, principalmente sob a alegação de que os procedimentos faturados não tinham suas nomenclaturas contidas na Terminologia Unificada de Saúde Suplementar (TUSS) da ANS.

Para conceituar, a TUSS foi instituída por meio de uma Instrução Normativa da ANS em 2009 com o objetivo de padronizar uma terminologia clínica única que viabilizasse a operacionalização do sistema de Troca de Informações na Saúde Suplementar (TISS), estabelecendo-se, desta forma, um padrão nacional de comunicação entre os prestadores de serviço na saúde suplementar, as operadoras/seguradoras de saúde e os seus beneficiários.

Como já sabido e mencionado anteriormente, as nomenclaturas dos procedimentos fisioterapêuticos e terapêuticos ocupacionais não estavam contempladas na TUSS. Ao longo dos anos, os contratos de prestação de serviços com as OPS foram celebrados de forma irregular, referenciando prestação de serviços de outra classe profissional. Isso fez com que os preços acordados entre as OPS e os prestadores de Fisioterapia e Terapia Ocupacional tivessem negociação dificultada.

Eu mesmo, enquanto diretor-secretário do CREFITO-4, estive, no dia 25 de abril de 2012, em audiência pública na Assembleia Legislativa para protestar por melhorias na saúde suplementar contra os baixos honorários praticados e pelas interferências antiéticas das OPS, como se pode ver em notícia publicada no site do CREFITO-4 (http://www.crefito4.org/ noticias_detalhe.php?id=56). Entre minhas sinalizações estava a necessidade de sermos incluídos na TUSS.

Posteriormente, o Sistema COFFITO/CREFITOs, que possui representante na ANS, conquistou a inclusão na nova versão da TUSS da nomenclatura dos procedimentos elencados no RNHF por meio da RN da ANS nº 305, de 17 de outubro de 2012, já vigente, porém com data final de implantação fixada para 30 de novembro de 2013.

É importante entender que a TUSS não dispõe sobre valores, apenas unifica a terminologia dos atendimentos em saúde. Mas, sem dúvida, agora temos instrumentos que facilitarão as negociações na saúde suplementar e diminuiremos o risco de prosperar a atual situação, que já tem se tornado um grave problema de saúde pública.

O CREFITO-4 atento às normativas da ANS, especialmente à instrução normativa (IN nº 49/2012 da DIDES/ANS) que regulamentou o artigo da RN nº 54, dispondo sobre a forma de reajuste, enviou ofício circular por e-mail aos profissionais circunscritos e com o cadastro atualizado, orientando que se atentassem para essa ocasião e verificassem com a máxima atenção se a forma de reajuste que lhes estaria sendo oferecida era a mais adequada para as necessidades/realidades. Veja ofício em:
http://www.crefito4.org/maisinfo.php?sec=par&id=154.

Ações conjuntas com a AMF nesse sentido já vinham sendo desenvolvidas desde junho de 2012, quando o CREFITO-4 consolidou parceria, conforme notícia no link:
http://www.crefito4.org/noticias_detalhe.php?id=70.

Em seguida, quando já vinha desenvolvendo estudos e planejando ações também com a FENAFISIO, encontrou e somou aos seus esforços o Sindicato das Empresas Prestadoras de Serviços de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (SEMPREFITO-MG). Acesse: http://www.crefito4.org/noticias_detalhe.php?id=96.

Agora, o Conselho poderia subsidiar e apoiar essas entidades para que, dentro das competências de cada uma, as ações ganhassem força e expressividade, e, principalmente, acontecessem de forma organizada e pensada estrategicamente de forma coletiva.

Em bloco de entidades, coassinaram uma notificação a todas as OPS registradas na ANS que atuam em Minas Gerais, alertando sobre os graves problemas identificados. Leia em: http://www.crefito4.org/noticias_detalhe.php?id=99.

Feito isso, convidamos então o SINFITO-MG para se incorporar ao grupo de entidades e autarquia federal (CREFITO-4) no projeto de Resgate da Dignidade e Valorização Profissional em Minas Gerais, cujas ações para melhorar as condições da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional na saúde suplementar constituem apenas uma das frentes dentre outras que ainda estão por vir, mas entendida como prioritária. E, assim, continuar o planejamento estratégico construído de forma coletiva.

Iniciou-se uma rotina de visitas às meso e macrorregiões do Estado para esclarecer os profissionais do projeto (http://www.crefito4.org/noticias_detalhe.php?id=93) e, aproveitando a postagem do boleto de anuidade pelo correio, encaminhou-se uma cientificação das ações aos profissionais, inclusive para instrumentalizá-los nas negociações com as OPS. Caso não conheça o documento, leia em: http://www.crefito4.org/maisinfo.php?sec=par&id=157.

Na condição de presidente da Comissão Regional de Procedimentos e Honorários (CORPROH) e de diretor-secretário do CREFITO-4, não tenho dúvidas de que há muito ainda a se fazer e a se conquistar. O trabalho será longo e com o devido tempo para se concretizar. Todavia, é fundamental a conscientização dos profissionais da necessidade de se filiarem às entidades de classe, já que elas, sim, representam os interesses dos profissionais. E, nesse caso específico, os sindicatos são os legitimados a realizarem os enfrentamentos necessários.

A Associação Mineira de Fisioterapeutas (AMF) possui toda a instrução para filiação no seu site: www.portalamf.com.br. Como a associação tem finalidade de integração e desenvolvimento científico-cultural dos Fisioterapeutas, seria de bom tom a filiação de todos os profissionais.

Já para defender os interesses trabalhistas dos profissionais Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais em Minas Gerais, temos o Sindicato dos Profissionais Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais (SINFITO-MG), com o qual você pode se comunicar pelo e-mail contato@sinfitomg.com.br.

E, por fim, no caso dos prestadores de serviços de Fisioterapia e de Terapia Ocupacional, temos o SEMPREFITO-MG, cujo contato é diretoria@semprefitomg.com.br. Essa entidade, sim, tem o dever de representar as empresas nas negociações e pleitos frente às OPS. Entretanto, representa tão-somente as empresas filiadas.

Lembre-se de que o CREFITO-4 não pode interferir nas negociações entre Prestadores de Serviços e OPS; o que tem feito, por meio de sua CORPROH, é apenas subsidiar as entidades de classe com respaldo, logística, recursos e orientações, tornando-as mais fortalecidas para realizarem os enfrentamentos necessários. Tenho, inclusive, acompanhado presencialmente as reuniões e ações desses sindicatos.

A consciência associativa da classe e o apontamento para essas entidades das necessidades dos profissionais é elementar. Utilize dos canais de comunicação aqui sinalizados para tal.

Essas são apenas algumas ações que estão sendo desenvolvidas com o objetivo de resgatar a valorização das profissões de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, porém, sem a conscientização e responsabilidade de cada um, a tarefa se tornará inviável.

O momento é de união, perseverança e consciência, pois somente assim colocaremos a Fisioterapia e a Terapia Ocupacional no lugar de destaque que merecem no âmbito da saúde pública. Resgatando a dignidade profissional, estaremos demonstrando respeito ao paciente e à sociedade como um todo.

Cada Fisioterapeuta e Terapeuta Ocupacional será um elo valioso na corrente que está sendo forjada, uma vez que, sem o profissional, não existirá a profissão.

Atenciosamente,

Dr. Anderson Luís Coelho
FisioTerapia em Foco”

Original em: Fisioterapia em Foco

Saúde mental e pobreza

É imprescindível em um blog que se propõe a tratar da saúde sob uma perspectiva abrangente, textos como este, transcrito integralmente da página da revista Carta Capital cujo autor é Gabriel Bonis

Link para a página original:http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-pobreza-leva-a-loucura-3431.html

 

A pobreza leva à loucura

Estudos estabelecem relação direta entre a desigualdade social e a incidência de doenças mentais nos desassistidos
por Gabriel Bonis — publicado 25/05/2013 – Revista Carta Capital

Estudos estabelecem relação direta entre a desigualdade social e a incidência de doenças mentais nos desassistidos

Na Londres do século XIX, Charlie Chaplin viveu uma infância atormentada pela pobreza e a instabilidade familiar. O ícone do cinema mudo perdeu o pai para o alcoolismo e acompanhou o declínio mental da mãe em meio à miséria. Embora evidências recentes sugiram que a “loucura” de Hannah Chaplin tenha sido causada pela sífilis, o comediante registrou em sua autobiografia que os problemas mentais da matriarca, surgiram porque ela passava fome para que os filhos pudessem comer.

Ainda que cientificamente incerto, o caso é um exemplo longínquo da relação entre pobreza e transtornos mentais, estudada ao menos a partir dos anos 1930. Desde então, surgiram pesquisas mais contemporâneas, entre elas uma análise que transplanta essa correlação ao Brasil. Feita em 2013 com dados do Censo do IBGE de 2010, um levantamento da ONG Meu Sonho Não Tem Fim indica que das mais de 2,4 milhões de pessoas com problemas mentais permanentes acima de 10 anos no Brasil, 82,32% são pobres.

Dentro desta proporção, 36,11% não possuíam rendimentos mensais e 46,21% viviam com até um salário mínimo. Outras 15,49% estavam na faixa entre um e cinco salários e apenas 2,19% recebiam acima desse patamar. “É preciso considerar que esses problemas também são causados por aspectos como a genética, mas a falta de uma alimentação mínima pode contribuir para o aparecimento de doenças que afetam o desempenho mental”, afirma Alex Cardoso de Melo, responsável pela pesquisa e idealizador da ONG, focada em trabalhos educativos com populações carentes.

A ideia de traçar a relação entre pobreza e problemas mentais no Brasil, diz Melo, surgiu após a divulgação de um estudo de 2005 de Christopher G. Hudson, Ph.D em politicas de saúde mental. O trabalho analisou dados de 34 mil pacientes com duas ou mais hospitalizações psiquiátricas em Massachusetts, nos Estados Unidos, entre 1994 e 2000. E concluiu que condições econômicas estressantes, como desemprego e impossibilidade pagar o aluguel, levam a doenças mentais. E mais: a prevalência destas enfermidades nas comunidades ricas analisadas foi de 4%, contra 12% nas mais pobres.

Os estudos sobre o tema percorrem as décadas e suas conclusões são similares nestes períodos, descobriu o doutor em Psicologia Fernando Pérez del Río, do projeto Homem de Burgos, na Espanha. No estudo Margens da Psiquiatria: Desigualdade Econômica e Doenças Mentais, ele analisou mais de 20 levantamentos sobre o tema e reuniu as principais conclusões.

Entre elas, está a de que em países desenvolvidos como EUA e Reino Unido existem mais doentes mentais, proporcionalmente, que na Nigéria, Dinamarca, Noruega e Suécia. E que estudos estabelecem uma relação entre o grau interno desigualdade econômica de um país como condicionante direta da saúde mental de seus cidadãos.

Exemplo disso é o estudo The Distribution of the Common Mental Disorders: Social Inequalities in Europe, de 2004. O documento, citado por Del Río, indica que dos 20% da população europeia de baixa renda, 51% possuem algum transtorno menta­l grave. São pessoas que, devido a suas dificuldades de adap­tação social, acabam condenadas a trabalhar em condições precárias e com salários insuficientes, levando a má nutrição e à manutenção do circulo de pobreza e exclusão.

A integração social, por outro lado, é determinante para o acesso dos cidadãos aos seus direitos e a suas expectativas de futuro. “Ser pobre em uma sociedade rica pode ser ainda mais danoso à saúde que o ser em uma área de extrema miséria”, conta Del Rio, a CartaCapital. “É obviamente muito difícil trabalhar a frustração em uma sociedade rica, onde as expectativas são mais altas e se deprecia o fracasso.” Algo que pode ser retratado por um estudo da Organização Mundial da Saúde de 2004, no qual foi identificada a prevalência de 4,3% de transtornos mentais na conturbada Xangai, na China, contra 26,4% nos EUA.

Del Río destaca, em seu estudo, que os problemas de saúde de uma população também estão ligados a forma como a desigualdade de poder econômico e social condiciona as políticas públicas. “As doenças mentais são uma construção social. A desigualdade torna as sociedades mais classistas, o que significa que as origens familiares interferem mais nas posições sociais, o que implica na transmissão intergeracional da pobreza”, diz a CartaCapital.

Sob esse ângulo, revelam os estudos, países com menos diferenças econômicas entre seus habitantes possuem os cidadãos mais sãos. Enquanto nações com políticas neoliberais mais agressivas e individualistas estariam mais sujeitas a problemas mentais por retratar as pessoas necessitadas como “parasitas sociais”. Um cenário que reforçaria ansiedades e os níveis de estresse, favorecendo o aumento destas doenças.

No artigo The Culture of Capitalism, Jonathan Rutherford, docente de Estudos Culturais da Universidade de Middlesex, na Inglaterra, acrescenta que uma sociedade desigual é mais violenta, pois não dá o apoio correto aos seus cidadãos. O que evidencia uma vulnerabilidade capaz de gerar ansiedades. E isso pode piorar com a crise mundial e os cortes de benefícios sociais na Europa, defende Del Río. “Hoje a situação é pior, pois está se produzindo um corte das ajudas, que levam as pessoas a situações limites.”

Marxismo e Saúde

Ao ler o artigo “Karl Marx: os altos e baixos de uma ideologia” na Carta Capital, refleti sobre as implicações do marxismo no campo da saúde, à luz de uma das autoras que respeito muito, Minayo.

Em um breve panorama  a produção intelectual sobre saúde/doença na América Latina durante as décadas de 1950 a 1970, Minayo (2010, citando Nunes, 1985) aponta que, na década de 1950 as teorias funcionalistas e culturalistas da saúde foram centrais nos trabalhos acadêmicos, tendo como resultado prático a “implementação de desenvolvimento e organização de comunidade” (Minayo, 2010 , p.79).

Cronologicamente situado neste período, encontra-se o conceito de Saúde apresentado pela OMS de 1948, que amplia a concepção de saúde ao propor a inserção da dimensão psicossocial a partir do enunciado “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de doenças ou enfermidades” (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2012).

Em contrapartida, o pensamento fenomenológico predominou nas décadas de 1960 e 1970 com sensíveis repercussões na saúde coletiva, onde efervesceram questionamentos sobre a onipotência/onipresença do “Estado sobre os indivíduos e grupos de referência, além da arbitrariedade impositiva das classes dominantes por meio dos sistemas de saúde” (Minayo, 2010, p.79). Esta vertente negava os princípios positivistas e funcionalistas, que tinham como prática a concepção de todo como sinônimo de massas, fortalecendo a afirmação dos “direitos individuais, do principio da autonomia, das pessoas, e da construção de grupos mediadores entre o Estado e as grandes instituições médicas e sanitárias” (Minayo, 2010, p.79).

Para Minayo (2010), o fortalecimento da perspectiva fenomenológica foi de grande importância na superação dos modos de entendimento e ações em saúde de molde positivista sociológico, se orientando pelos significados subjetivos de saúde/doença e na “condenação teórica do anonimato, das leis gerais e das invariâncias” (Minayo, 2010, p.79).

marxNa década de 70, onde gostaria de chegar efetivamente, houve uma ampliação de trabalhos sob orientação marxista ganhando relevância a concepção de saúde associada à resistência da população ao autoritarismo e à violência política vigente no período da ditadura militar, resultando em propostas de mudanças estruturais na distribuição e acesso à saúde, esta entendida como bem social (Minayo, 2010).

Para a autora, a interpretação marxista da saúde se desenvolveu sob o clima dos movimentos sociais em busca do direito universal à saúde. O materialismo histórico e dialético foi o fundamento para interpretação do processo saúde-doença, tendo, portanto, a premissa da posição de classe “como elemento fundamental na explicação da distribuição da saúde e da doença e dos tipos de patologia predominante” (Minayo, 2010, p.125).

Para refletir com Minayo (p.125 e 126)…

1. O avanço científico e tecnológico da medicina não correspondeu às melhorias de saúde

2. A distribuição dos serviços perpetua a inversão das necessidades ante o poder econômico

3. As péssimas condições de vida e saúde da população exigem respostas que superem o modelo unicausal-biológico das doenças

4. A importância da consciência da própria sociedade de que o acesso à saúde é um bem inegociável

5. A importância dos movimentos sociais, “definindo e reivindicando que a provisão de saúde é dever do Estado e direito do cidadão” (Minayo, 2010, p.126).

Parece bem oportuno na atual situação da saúde brasileira … não?

MINAYO M. C. de S. (2010). O Desafio do Conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo. Hucitec.

 

Por que ou para que um fisioterapeuta estudaria religião?

Entre Natal e Carnaval, cá estou novamente… Aproveito para agradecer a todos o carinho e incentivo constante com o Blog assim como as contribuições dos vários colegas que deixaram aqui sua valiosa contribuição.

Vamos lá…

interrogacaoNão é original de minha parte estudar temas aparentemente distantes da prática do Fisioterapeuta, entretanto, sempre que comento o tema de minha dissertação uma pergunta, natural, surge: Por que/para que uma fisioterapeuta estudaria religião? No meu caso específico… que tem a ver saúde do idoso com Espiritismo?

As atividades de pesquisa, extensão e docência representam um grande desafio para o Fisioterapeuta que deseja atuar sob a égide de uma concepções ampliadas de saúde. As principais causas desta dificuldade estão relacionada à nossa “infância” enquanto profissão regulamentada (decreto lei N. 938 – de 13 de outubro de 1969 – COFFITO, 2012) e que a ainda não superou a predominância de concepções reabilitacionais, secundaristas e de uma ideia de saúde circunscrita ao biológico e ao curativo.

A hegemonia desta concepção na formação do Fisioterapeuta polariza o conhecimento em um aporte teórico-prático biopatológico que pouco entende o sujeito como um ser onde “o corpo humano é atravessado pelas determinações das condições, situações e estilos de vida.” (Minayo, 2010, p.39).

O estudo do movimento humano – objeto específico do meu trabalho profissional – não é restrito ao seu componente orgânico como o próprio Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional – COFFITO sinaliza ao proferir a definição de Fisioterapia::

“Fundamenta suas ações em mecanismos terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos da Biologia, das ciências morfológicas, das ciências fisiológicas, das patologias, da bioquímica, da biofísica, da biomecânica, da cinesia, da sinergia funcional, e da cinesia patologia de órgãos e sistemas do corpo humano e as disciplinas comportamentais e sociais.” (COFFITO, 2013, grifo nosso).
Embora constem como disciplinas de formação os aspectos psicossociais ocupam um lugar tímido nos currículos acadêmicos e mais ainda na prática profissional. Esta fragilidade na formação do Fisioterapeuta, sobretudo minha, foi tema de inúmeros debates quando derivavam de situações onde minha atuação profissional exigiu conhecimentos diferenciados.

Duas dessas experiências se desenvolveram em núcleos Espíritas, tanto como confissão religiosa pessoal quanto como espaço de estágio em Fisioterapia Geriátrica. Essas duas experiências foram palco desta busca por uma compreensão mais ampla de saúde, principalmente sobre a função religiosa nos mecanismos sociais e psíquicos nos determinantes da saúde do idoso.

Mafalda e as ideias do que realmente importa.

Mafalda e as ideias do que realmente importa.

Associada à este fator foi de grande importância a minha experiência como supervisora de estágio em atenção primária à saúde.Neste momento ficou claro que intervir em sujeitos portadores de sequelas cinesiológicas funcionais em sua comunidade não os destituía do contexto social em que estavam inseridos ou mesmo das crenças que compartilhavam.

Era necessário conhecer e atuar além do habitual Fisioterapêutico, por vezes lembrar a esses sujeitos de sua existência, de sua autonomia. Muitas vezes percebi que o único local onde eles se sentiam “Pessoas”, “alguém para alguém” era em seus núcleos religiosos.

Como Fisioterapeuta e como supervisora coube a necessidade de não reproduzir os moldes de saúde que critico o que fez crescer ainda mais meu interesse sobre a área dos processos psicossociais em saúde, sobre os diferentes funcionamentos do ser humano e de modo específico sobre a experiência religiosa na saúde.

Ratificando a justificativa pessoal da escolha do tema a literatura científica mostra que as discussões a respeito dos conceitos e paradigmas de saúde caminham para concepções que envolvem cada vez mais os aspectos psíquicos, sociais e espirituais compreendendo-os como parte integrante do conjunto humano. A aproximação entre as ciências da saúde e as ciências humanas, principalmente da sociologia, antropologia e psicologia, favoreceu este aprofundamento.

Dentre estas dimensões socioculturais formadoras das representações “de mundo” encontra-se a religião tema crescente de trabalhos acadêmicos que articulam a experiência religiosa com a saúde, inclusive entre idosos. Há cada vez mais indícios de que a população idosa parece possuir maior religiosidade, provavelmente por fatores intrínsecos ao processo de envelhecimento como reflexões sobre a transitoriedade da vida e convivência com a morte, perda de autonomia e perda de representatividade nos loci familiar e na sociedade como um todo.

Quem sabe entendendo melhor esta relação não posso favorecer estratégias de intervenção condizentes com as características próprias do idoso que segue determinada crença? Quem sabe o núcleo religioso não seja um lócus de trabalho onde posso desenvolver estas atividades?

A verdade é que não tenho uma resposta certa para dar! Venho percebendo que estudar este tema flexibilizou os muros que me definem como Fisioterapeuta, mas até o momento não me senti menos profissional ou menos qualificada na minha prática…

Citações:

Paulo Freire: Pedagogia da Autonomia

Maria Cecília de Souza Minayo: O Desafio do Conhecimento.

Resultados de nossos pequenos passos aqui no blog

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 2.000 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 3 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

Profissionais humanos … que tal humanizar-vos?

Marcus FariaFilósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Marcus Faria
Filósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Este olhar é do…

“Uma mulher de 36 anos deu entrada no hospital no leito 437 às 13h decorrente de um acidente doméstico por queimadura. Seu quadro é estável, já se encontra devidamente medicada e sob cuidados clínicos”.

Casos assim são costumeiros na vida de vários agentes de saúde, devidamente especializados e treinados para lidar com situações adversas.

A bagagem científica recebida na faculdade, dada de forma generalizada e objetiva, permite aos profissionais o manejo de terapias e soluções cabíveis, bastando identificar o problema e observar a gravidade do caso para saber o que e como fazer os procedimentos apropriados.

É o mínimo a se exigir de um bom profissional de saúde, pois situações assim implicam a vida de pessoas e seus riscos de perdê-la ou ter sua saúde debilitada. Correr contra o tempo e a demanda de pessoas que entram e saem de hospitais, clínicas e centros de saúde exige ações rápidas e concisas.

O problema de se adotar unicamente uma postura científica ao se trabalhar com pacientes é esquecer que aquelas pessoas não são apenas pacientes. São vidas em potencial, com suas experiências pessoais, hábitos de vida, crenças sociais, etc.

Não se trata apenas de uma mulher de 36 anos no leito 437 depois do meio dia. Pode ser uma mãe ou uma empregada que preparava o almoço e distraída com alguma preocupação ou por conta de alguma doença que não sabia acabou deixando óleo quente cair sobre as mãos.

Tal discurso parece um tanto emocional e patético se concretizarmos a ideia de que é impossível se solidarizar ou querer inteirar-se dos problemas e angústias de cada um dos milhares de seres que habitam provisoriamente um leito hospitalar. É até mesmo absurdo querer esperar de um médico, enfermeiro ou fisioterapeuta vontade para aprender conceitos filosóficos e humanistas para lidar com questões que são obrigações de um psicólogo ou assistente social. Resumindo: “Cada macaco no seu galho! Deixe medicar quem tem que medicar e terapia para quem faz terapia”.

Realmente não faz sentido algum querer que um profissional de saúde seja gabaritado para dar lições de comportamento ou identificar desvios psicológicos. O que é interessante esclarecer é a importância de se deixar um pouco de só enxergar números, causa e consequência, classificações métricas.

Como já foi dito é quase impossível querer saber detalhes de tantas pessoas que vem e vão a todo instante. O importante não é o tempo e a rotatividade de pessoas, mas o momento em que paciente e agente estão frente à frente, são aqueles breves minutos de uma consulta, de uma medicação, de uma sessão de fisioterapia.

Para o paciente surge a sensação de não ser apenas mais um, mas de ser um a ser atendido, a ser dado atenção. Para o agente aumenta-se a probalidade de conhecer melhor a intimidade da pessoa, para que nela ele possa identificar a origem específica de um problema, se aquela pessoa mantém hábitos favoráveis ou não para se recuperar melhor, se há no jeito dela viver uma forma de se adaptar a um tratamento, etc.

Enquanto um paciente se sente acolhido um agente colhe informações mais precisas e subjetivas.

Mas na prática o que seria essa humanização e como procedê-la? Já foi dito que há uma postura mais subjetiva: cada um visto como cada um.

O contato é fundamental, pois é por ele que se faz uma troca: o paciente passa informações e o agente passa segurança. E essa segurança seria muito bem vinda se acompanhada de uma certa emotividade, que pode contribuir para uma sensação de bem estar e receptividade.

Um paciente que se sente seguro e acolhido com certeza tem grandes chances de melhorar mais depressa e facilmente. Ocorre nesse processo uma sensação humana básica e que todos nós gostamos: o prazer.

Somos direcionados ao que nos dá prazer e tudo aquilo que nos afasta de certa forma desse sentimento atrasa, torna o processo lento, angustiante, causa ansiedade. E estar num processo de recuperação em um hospital ou clínica não é nem um pouco agradável. São os lugares mais improváveis de uma pessoa ter algum prazer! Por isso seria muito bem vinda uma sensação assim num momento tão incômodo.

Aquém das vantagens de um processo prazeroso, que merecem um texto à parte, como poderia um agente de saúde realizar um atendimento mais humanitário?

Uma forma seria se especializando em cursos de humanas, acumulando conhecimentos filosóficos e psicológicos que atuariam como veículo, como acréscimo à experiência de cada profissional.

Faz-se importante a vontade de cada agente de saúde querer fazer um curso em humanas; mas fazê-lo não é garantia de tornar o atendimento mais humanitário. Vale muito a pena instruir-se, ter contato com esse lado mais antropológico, mas tornar a atitude clínica mais humanitária vai além. Tais cursos, sem querer desvalorizá-los, são, na verdade, um meio termo, um abono, mas não a solução. É importante chamar a atenção que despertar uma ação humanista vem de cada pessoa e cursos são apenas meios que lapidam esse lado humano anestesiado pelas exigências objetivas da ciência.

Se informar sobre cultura, ideias e teorias terapêuticas é muito bem vindo ao agente de saúde para que ele seja capaz de esclarecer algumas dúvidas, questionamentos. Aumentaria não só a qualidade de sua vida profissional como contribuiria bastante para sua própria evolução como Ser Humano.

Mas o grande passo a ser dado viria de sua própria vontade de criar pontes e aumentar o contato com cada paciente. Deixar um pouco de lado a postura maniqueísta de “saudável-doente, vida-óbito, causa-consequência” e se permitir aprofundar um pouco mais na experiência única de cada pessoa.

Podemos alegar vários impedimentos para que a Saúde continue sendo apenas um palco medicinal e que seus profissionais mantenham uma postura objetiva para simplesmente conseguir concluir com eficácia a jornada de trabalho. Mas vale a pena lembrar que, em algum momento, os agentes de saúde também tornam-se pacientes.

Redes sociais virtuais, imprensa, indicadores urbanos e violência

Luciana Xavier Senra - Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Luciana Xavier Senra – Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Este olhar é da …

 

Há alguns meses fui adicionada em um grupo de discussão virtual de uma rede social sobre a política local e as influências da situação nacional sobre ela. Passado o calor das eleições, quando todos expressaram suas indignações, posicionamentos e preferências por este ou aquele candidato ou partido político, restaram nesse grupo as discussões acerca de diversos temas.

Dentre eles, a composição da câmara de vereadores, quem será seu novo presidente, reforma política, índices sociais e o que mais me chamou atenção: o crescimento (ou não) de nossa cidade nos seguimentos básicos de habitação, renda, educação, saúde e segurança pública. Este último foi decorrente de um post sobre uma matéria do jornal de circulação local intitulada “JF cai de 3º para 49º lugar em Minas no índice social” do dia 04 de dezembro de 2012.

O autor dessa postagem destacou “das cinco dimensões avaliadas (habitação, renda, trabalho, saúde/segurança e educação), Juiz de Fora apresentou queda de desempenho em quatro delas. Apenas no critério educação não houve retrocesso, com a cidade obtendo o mesmo resultado do estudo feito em 2000”.

O questionamento que não me deixou permanecer apenas refletindo sem me expressar e me impulsionou a comentar esse post foi: “como não considerar a manutenção de um resultado também um retrocesso se já se passaram 12 anos e nada mudou? Queda de desempenho e involução não são sinônimos, mas ambos tem impactos significativamente prejudiciais para indivíduos, famílias e comunidades”.

Em tempos de fluidez e repercussão de comentários na velocidade da luz, o comentário vale mais pela quantidade de curtidas que ganhou do que pelo mal estar ou indignação revelados. Como meu comentário obteve apenas uma curtida, meu questionamento e nada foi a mesma coisa. Valem, como destacou um membro do grupo virtual, comentários de famosos do tipo “to na área…” com 52.825 curtidas. Não sou tão rápida assim com tantas informações disseminadas virtualmente, portanto, já me antecipo dizendo que também não sou frequentadora assídua das redes sociais e grupos virtuais de discussões, embora alguns temas tenham me chamado atenção, sobretudo a partir da última semana do mês de novembro.

Desde o período ressaltado, o mesmo jornal de circulação local, até por volta dos dias 08 e 09 de dezembro do ano findouro, trouxe uma rápida série de reportagens sobre a temática da violência e segurança pública na cidade no corte temporal dos últimos dez anos, com matérias como “Geração exterminada pela violência” e “Acesso a armas acirra violência”.

A primeira delas mostrava que de 2002 até 2012 “quase a metade das mortes violentas ocorridas em Juiz de Fora este ano – 38 de 85 homicídios – tem como vítimas jovens, a maioria negros e pobres” e na segunda foi evidenciado que “em uma década, confrontos juvenis nos quais eram usados paus e pedras, foram substituídos por crimes com tiros”.

Esses dados, infelizmente, são consoantes à realidade nacional e com das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ou, mais bem explicitando, com cidades do mesmo porte que JF e até menores como Governador Valadares; como é revelado pelo Mapa 2012 da Violência no Brasil desde o mês de maio (época de seu lançamento), e divulgado, curiosamente, apenas agora, nos meses de novembro e dezembro, no auge da crise da segurança pública na cidade de São Paulo, após as eleições.

Voltando à realidade local, diária e semanalmente são divulgados assassinatos de adolescentes e jovens por rixas de gangues; assaltos à porta de residências; espancamentos às mulheres e, ontem, “confronto em residencial leva medo a 380 famílias”, quando a Polícia Militar foi chamada três vezes para conter o confronto entre os moradores do “Minha casa, minha vida” e aqueles de bairros vizinhos, que se utilizaram de paus, pedras, armas brancas e de fogo para se enfrentarem.

Sensacionalismos e o claro tendencionismo à direita da imprensa a parte, o fato revela, na verdade, que não basta dar teto e colocar as famílias debaixo para saírem da condição de pobreza extrema; para se protegerem da chuva que sempre ameaçou encostas e margens de rios. As pessoas estão sem saber o que é um lar; as crianças, adolescentes e jovens estão aprendendo a não ter perspectivas, a não terem mais sonhos, tamanha a ociosidade, tamanho o retrocesso nos seguimentos de trabalho, renda, habitação, saúde, segurança e as mesmas condições educacionais de dez anos atrás de nossa cidade.

O que não quer calar: onde está o poder público? Onde estão os cidadãos? Onde estão as diretrizes de aplicabilidade da inclusão sanitária, social e educacional? Onde está o cumprimento de diversas legislações para melhores qualificações e remunerações de profissionais que, no exercício de seu trabalho, podem contribuir para a redução de tanta desigualdade e fazer com a cidade pare de cair no ranking de indicadores sociais? Muitos de nós profissionais da saúde, da educação e da assistência social defendemos a inclusão daqueles com alguma necessidade especial física, cognitiva e sensorial (me desculpem se não usei a expressão correta), daqueles marginalizados por sua orientação sexual ou por sua cor/raça/etnia.

Muito certo, é nosso dever profissional e de cidadão. Mas e quanto aos incluídos fora da escola, da assistência social, da saúde e da segurança pública e, portanto, excluídos em grupos de traficantes de drogas e armas, em grupos rivais de gangues compostos, em sua maioria, por meninos usados para transporte e venda de armas e drogas, com apologia às facções criminosas de São Paulo e Rio de Janeiro, numa verdadeira escola para a criminalidade e envolvimento com atividades ilícitas? O que pensar? Com o que agir? O que e como fazer? De quem exigir?

Diante de tantos questionamentos, ainda me deparo com ausência de respostas e alternativas ofertadas pelo poder público de todas as esferas, de cada seguimento profissional e até das pessoas em geral, porque ao perguntar a elas e aos jovens das regiões daqui de JF onde há baixa infraestrutura social e onde tem ocorrido constantes confrontos de gangues, rixas de bairros como os de ontem (11/12) e de hoje (12/12) com mais agressões e violência e apreensão de drogas, assaltos, roubos… Elas me dizem: “ah! Isso aqui já é normal faz tempo!”. Ficaria decretado então que é normal conviver com violência e ausência de um mínimo de estrutura social?