Fisioterapia BioAntropológica

Este olhar é do

Como uma das propostas deste Blog é abrir e dialogar com diferentes horizontes teóricos e práticos sobre a saúde e sobre o movimento humano,  que tal sabermos…

Bruno Montoro é fisioterapeuta, de São Paulo. Organizador do curso da FBA e coordenador do Reprograme-se.

Bruno Montoro é fisioterapeuta, organizador do curso da FBA e coordenador do Reprograme-se em São Paulo.

O que é Fisioterapia BioAntropológica?

Fisioterapia BioAntropológica ou FBA é Fisioterapia Evolutiva. Aplica o estudo da humanidade e seus problemas biomecânicos (de movimento) a pratica da reabilitação.

 A vida no planeta existe há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, e as pressões evolutivas sofridas por cada espécie moldaram o corpo que temos agora. O estudo da evolução das espécies mostra um corpo humano que evoluiu para o movimento. Seja percorrer longas distâncias, escalar uma árvore ou fazer ferramentas, durante milhões de anos o cérebro adaptou-se para deixar o corpo mais eficaz para sua sobrevivência.

 Mas com o advento da agricultura há 12.000 anos e com a revolução industrial a lei do conforto instalou-se. Fazer menos para produzir mais. Todas as importantes aquisições começaram a ser ignoradas, em troca de uma vida mais fácil.

 Nada contra o conforto, muito bem merecido em um final de um longo dia de trabalho. Mas o excesso tem gerado em nossa sociedade uma epidemia mundial de dores no corpo, um problema que é ignorado pela população em geral. A má utilização do corpo leva ao encurtamento muscular, fraqueza generalizada, sobrecarga das articulações, diminuição da mobilidade, alterações na postura, dor e doenças.

 Quem não conhece pessoas que sofram de tendinites, lombalgias, dores no ciático, esporão de calcâneo e outros? Hoje em dia é muito comum.

 Mas a fisioterapia dita “convencional” não trabalha de forma a devolver o movimento ao ser humano? Qual o diferença da abordagem da FBA?

 Com certeza. Fisioterapia é movimento. O problema é que os fisioterapeutas não aprendem isso de maneira fácil. Estuda-se 4 a 5 anos em uma graduação que ensina de forma encaixotada e protocolada, que se traduz em um profissional que divide o corpo humano em pedaços, esquecendo-se da sua globalidade.

 O tratamento “convencional” de fisioterapia é complexo, com exercícios para cada disfunção ou parte do corpo, aparelhos caros e um número de sessões intermináveis. Muitas pessoas desistem da fisioterapia por que não agüentam mais o mesmo tratamento inúmeras vezes, sem melhora. Já o fisioterapeuta fica preso em um sistema que valoriza os equipamentos, a técnica e não o seu raciocínio.

 Utilizando da lógica da evolução advinda da FBA, o fisioterapeuta descobre o hábito que gera a disfunção no corpo e ensina seu paciente a se movimentar de maneira simples e eficiente, em qualquer lugar.

 Os 3 pilares que compõem o tratamento da FBA são:

Educação, mostrando como os hábitos modernos afastaram o paciente da saúde;

Tratamento evolutivo, aproximando o corpo de movimentos mais naturais;

Orientação, devolvendo ao paciente o papel de verdadeiro responsável pela sua saúde.

Gera-se uma reorganização geral do corpo humano, revivendo as etapas de desenvolvimento que o construíram, são as Libertações Biomecânicas. Assim, em poucas sessões, utilizando da simplicidade e da globalidade do movimento, lesões ou disfunções corporais melhoram muito mais rapidamente.

Saiba mais sobre a FBA:

http://cursofba.com/

https://www.facebook.com/fisioba

http://www.youtube.com/watch?v=gAV5xnEnuyk

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Profissionais humanos … que tal humanizar-vos?

Marcus FariaFilósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Marcus Faria
Filósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Este olhar é do…

“Uma mulher de 36 anos deu entrada no hospital no leito 437 às 13h decorrente de um acidente doméstico por queimadura. Seu quadro é estável, já se encontra devidamente medicada e sob cuidados clínicos”.

Casos assim são costumeiros na vida de vários agentes de saúde, devidamente especializados e treinados para lidar com situações adversas.

A bagagem científica recebida na faculdade, dada de forma generalizada e objetiva, permite aos profissionais o manejo de terapias e soluções cabíveis, bastando identificar o problema e observar a gravidade do caso para saber o que e como fazer os procedimentos apropriados.

É o mínimo a se exigir de um bom profissional de saúde, pois situações assim implicam a vida de pessoas e seus riscos de perdê-la ou ter sua saúde debilitada. Correr contra o tempo e a demanda de pessoas que entram e saem de hospitais, clínicas e centros de saúde exige ações rápidas e concisas.

O problema de se adotar unicamente uma postura científica ao se trabalhar com pacientes é esquecer que aquelas pessoas não são apenas pacientes. São vidas em potencial, com suas experiências pessoais, hábitos de vida, crenças sociais, etc.

Não se trata apenas de uma mulher de 36 anos no leito 437 depois do meio dia. Pode ser uma mãe ou uma empregada que preparava o almoço e distraída com alguma preocupação ou por conta de alguma doença que não sabia acabou deixando óleo quente cair sobre as mãos.

Tal discurso parece um tanto emocional e patético se concretizarmos a ideia de que é impossível se solidarizar ou querer inteirar-se dos problemas e angústias de cada um dos milhares de seres que habitam provisoriamente um leito hospitalar. É até mesmo absurdo querer esperar de um médico, enfermeiro ou fisioterapeuta vontade para aprender conceitos filosóficos e humanistas para lidar com questões que são obrigações de um psicólogo ou assistente social. Resumindo: “Cada macaco no seu galho! Deixe medicar quem tem que medicar e terapia para quem faz terapia”.

Realmente não faz sentido algum querer que um profissional de saúde seja gabaritado para dar lições de comportamento ou identificar desvios psicológicos. O que é interessante esclarecer é a importância de se deixar um pouco de só enxergar números, causa e consequência, classificações métricas.

Como já foi dito é quase impossível querer saber detalhes de tantas pessoas que vem e vão a todo instante. O importante não é o tempo e a rotatividade de pessoas, mas o momento em que paciente e agente estão frente à frente, são aqueles breves minutos de uma consulta, de uma medicação, de uma sessão de fisioterapia.

Para o paciente surge a sensação de não ser apenas mais um, mas de ser um a ser atendido, a ser dado atenção. Para o agente aumenta-se a probalidade de conhecer melhor a intimidade da pessoa, para que nela ele possa identificar a origem específica de um problema, se aquela pessoa mantém hábitos favoráveis ou não para se recuperar melhor, se há no jeito dela viver uma forma de se adaptar a um tratamento, etc.

Enquanto um paciente se sente acolhido um agente colhe informações mais precisas e subjetivas.

Mas na prática o que seria essa humanização e como procedê-la? Já foi dito que há uma postura mais subjetiva: cada um visto como cada um.

O contato é fundamental, pois é por ele que se faz uma troca: o paciente passa informações e o agente passa segurança. E essa segurança seria muito bem vinda se acompanhada de uma certa emotividade, que pode contribuir para uma sensação de bem estar e receptividade.

Um paciente que se sente seguro e acolhido com certeza tem grandes chances de melhorar mais depressa e facilmente. Ocorre nesse processo uma sensação humana básica e que todos nós gostamos: o prazer.

Somos direcionados ao que nos dá prazer e tudo aquilo que nos afasta de certa forma desse sentimento atrasa, torna o processo lento, angustiante, causa ansiedade. E estar num processo de recuperação em um hospital ou clínica não é nem um pouco agradável. São os lugares mais improváveis de uma pessoa ter algum prazer! Por isso seria muito bem vinda uma sensação assim num momento tão incômodo.

Aquém das vantagens de um processo prazeroso, que merecem um texto à parte, como poderia um agente de saúde realizar um atendimento mais humanitário?

Uma forma seria se especializando em cursos de humanas, acumulando conhecimentos filosóficos e psicológicos que atuariam como veículo, como acréscimo à experiência de cada profissional.

Faz-se importante a vontade de cada agente de saúde querer fazer um curso em humanas; mas fazê-lo não é garantia de tornar o atendimento mais humanitário. Vale muito a pena instruir-se, ter contato com esse lado mais antropológico, mas tornar a atitude clínica mais humanitária vai além. Tais cursos, sem querer desvalorizá-los, são, na verdade, um meio termo, um abono, mas não a solução. É importante chamar a atenção que despertar uma ação humanista vem de cada pessoa e cursos são apenas meios que lapidam esse lado humano anestesiado pelas exigências objetivas da ciência.

Se informar sobre cultura, ideias e teorias terapêuticas é muito bem vindo ao agente de saúde para que ele seja capaz de esclarecer algumas dúvidas, questionamentos. Aumentaria não só a qualidade de sua vida profissional como contribuiria bastante para sua própria evolução como Ser Humano.

Mas o grande passo a ser dado viria de sua própria vontade de criar pontes e aumentar o contato com cada paciente. Deixar um pouco de lado a postura maniqueísta de “saudável-doente, vida-óbito, causa-consequência” e se permitir aprofundar um pouco mais na experiência única de cada pessoa.

Podemos alegar vários impedimentos para que a Saúde continue sendo apenas um palco medicinal e que seus profissionais mantenham uma postura objetiva para simplesmente conseguir concluir com eficácia a jornada de trabalho. Mas vale a pena lembrar que, em algum momento, os agentes de saúde também tornam-se pacientes.

Redes sociais virtuais, imprensa, indicadores urbanos e violência

Luciana Xavier Senra - Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Luciana Xavier Senra – Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Este olhar é da …

 

Há alguns meses fui adicionada em um grupo de discussão virtual de uma rede social sobre a política local e as influências da situação nacional sobre ela. Passado o calor das eleições, quando todos expressaram suas indignações, posicionamentos e preferências por este ou aquele candidato ou partido político, restaram nesse grupo as discussões acerca de diversos temas.

Dentre eles, a composição da câmara de vereadores, quem será seu novo presidente, reforma política, índices sociais e o que mais me chamou atenção: o crescimento (ou não) de nossa cidade nos seguimentos básicos de habitação, renda, educação, saúde e segurança pública. Este último foi decorrente de um post sobre uma matéria do jornal de circulação local intitulada “JF cai de 3º para 49º lugar em Minas no índice social” do dia 04 de dezembro de 2012.

O autor dessa postagem destacou “das cinco dimensões avaliadas (habitação, renda, trabalho, saúde/segurança e educação), Juiz de Fora apresentou queda de desempenho em quatro delas. Apenas no critério educação não houve retrocesso, com a cidade obtendo o mesmo resultado do estudo feito em 2000”.

O questionamento que não me deixou permanecer apenas refletindo sem me expressar e me impulsionou a comentar esse post foi: “como não considerar a manutenção de um resultado também um retrocesso se já se passaram 12 anos e nada mudou? Queda de desempenho e involução não são sinônimos, mas ambos tem impactos significativamente prejudiciais para indivíduos, famílias e comunidades”.

Em tempos de fluidez e repercussão de comentários na velocidade da luz, o comentário vale mais pela quantidade de curtidas que ganhou do que pelo mal estar ou indignação revelados. Como meu comentário obteve apenas uma curtida, meu questionamento e nada foi a mesma coisa. Valem, como destacou um membro do grupo virtual, comentários de famosos do tipo “to na área…” com 52.825 curtidas. Não sou tão rápida assim com tantas informações disseminadas virtualmente, portanto, já me antecipo dizendo que também não sou frequentadora assídua das redes sociais e grupos virtuais de discussões, embora alguns temas tenham me chamado atenção, sobretudo a partir da última semana do mês de novembro.

Desde o período ressaltado, o mesmo jornal de circulação local, até por volta dos dias 08 e 09 de dezembro do ano findouro, trouxe uma rápida série de reportagens sobre a temática da violência e segurança pública na cidade no corte temporal dos últimos dez anos, com matérias como “Geração exterminada pela violência” e “Acesso a armas acirra violência”.

A primeira delas mostrava que de 2002 até 2012 “quase a metade das mortes violentas ocorridas em Juiz de Fora este ano – 38 de 85 homicídios – tem como vítimas jovens, a maioria negros e pobres” e na segunda foi evidenciado que “em uma década, confrontos juvenis nos quais eram usados paus e pedras, foram substituídos por crimes com tiros”.

Esses dados, infelizmente, são consoantes à realidade nacional e com das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ou, mais bem explicitando, com cidades do mesmo porte que JF e até menores como Governador Valadares; como é revelado pelo Mapa 2012 da Violência no Brasil desde o mês de maio (época de seu lançamento), e divulgado, curiosamente, apenas agora, nos meses de novembro e dezembro, no auge da crise da segurança pública na cidade de São Paulo, após as eleições.

Voltando à realidade local, diária e semanalmente são divulgados assassinatos de adolescentes e jovens por rixas de gangues; assaltos à porta de residências; espancamentos às mulheres e, ontem, “confronto em residencial leva medo a 380 famílias”, quando a Polícia Militar foi chamada três vezes para conter o confronto entre os moradores do “Minha casa, minha vida” e aqueles de bairros vizinhos, que se utilizaram de paus, pedras, armas brancas e de fogo para se enfrentarem.

Sensacionalismos e o claro tendencionismo à direita da imprensa a parte, o fato revela, na verdade, que não basta dar teto e colocar as famílias debaixo para saírem da condição de pobreza extrema; para se protegerem da chuva que sempre ameaçou encostas e margens de rios. As pessoas estão sem saber o que é um lar; as crianças, adolescentes e jovens estão aprendendo a não ter perspectivas, a não terem mais sonhos, tamanha a ociosidade, tamanho o retrocesso nos seguimentos de trabalho, renda, habitação, saúde, segurança e as mesmas condições educacionais de dez anos atrás de nossa cidade.

O que não quer calar: onde está o poder público? Onde estão os cidadãos? Onde estão as diretrizes de aplicabilidade da inclusão sanitária, social e educacional? Onde está o cumprimento de diversas legislações para melhores qualificações e remunerações de profissionais que, no exercício de seu trabalho, podem contribuir para a redução de tanta desigualdade e fazer com a cidade pare de cair no ranking de indicadores sociais? Muitos de nós profissionais da saúde, da educação e da assistência social defendemos a inclusão daqueles com alguma necessidade especial física, cognitiva e sensorial (me desculpem se não usei a expressão correta), daqueles marginalizados por sua orientação sexual ou por sua cor/raça/etnia.

Muito certo, é nosso dever profissional e de cidadão. Mas e quanto aos incluídos fora da escola, da assistência social, da saúde e da segurança pública e, portanto, excluídos em grupos de traficantes de drogas e armas, em grupos rivais de gangues compostos, em sua maioria, por meninos usados para transporte e venda de armas e drogas, com apologia às facções criminosas de São Paulo e Rio de Janeiro, numa verdadeira escola para a criminalidade e envolvimento com atividades ilícitas? O que pensar? Com o que agir? O que e como fazer? De quem exigir?

Diante de tantos questionamentos, ainda me deparo com ausência de respostas e alternativas ofertadas pelo poder público de todas as esferas, de cada seguimento profissional e até das pessoas em geral, porque ao perguntar a elas e aos jovens das regiões daqui de JF onde há baixa infraestrutura social e onde tem ocorrido constantes confrontos de gangues, rixas de bairros como os de ontem (11/12) e de hoje (12/12) com mais agressões e violência e apreensão de drogas, assaltos, roubos… Elas me dizem: “ah! Isso aqui já é normal faz tempo!”. Ficaria decretado então que é normal conviver com violência e ausência de um mínimo de estrutura social?

Um caso amoroso com a fisioterapia… amo ou deixo?

Este olhar é da…

Lilian Atalaia
Fisioterapeuta e Mestranda em Psicobiologia UNIFESP

Você sabia que a escolha de uma profissão é mais ou menos como se apaixonar por alguém?

Primeiro surge um certo interesse, uma curiosidade, depois vem a paixão, aquele sentimento tão gostoso e único, ao mesmo tempo aquela incerteza se é isto mesmo, afinal não existem garantias, mas lá no fundo há uma vontade de continuar, de se aventurar.
Esta fase é a fase da empolgação, onde tudo são flores e você tem muito tempo pela frente.

Escolhi a Fisioterapia porque queria fazer a diferença, gostaria de ajudar os outros. E assim meu relacionamento começou feliz com minha decisão e deslumbrada em conhecer cada vez mais a minha futura profissão.
Como a maioria dos recém-apaixonados, tudo é novidade e parece difícil viver o presente e conter a ansiedade de chegar logo o futuro. No início do curso só tínhamos uma matéria que nos conectava com a Fisio, o restante era do ciclo básico e foi neste momento que a doce inocência, pelo menos a minha, acabou.

Sabe quando você começa a enxergar alguns defeitos na pessoa que você está apaixonada? Comecei a notar que minha profissão tinha seus problemas, muito precisava ser feito, principalmente em adquirir o respeito e conhecimento por parte da sociedade, que nem sempre a remuneração é digna e que a própria universidade pública, que temos tanto orgulho em falar que fazemos parte, possui enormes problemas.

Neste momento alguns terminam a relação, mudam de parceiros, outros continuam porque acreditam que as coisas boas prevalecem sobre as ruins, bem… eu continuei, feliz e ansiosa por conhecer de fato, a fisioterapia.

No final do quarto período surgiu uma possibilidade que mudou minha vida, que foi passar em um projeto de pesquisa, chamado Rede FIBRA, cujo grande objetivo é investigar o perfil de quem é o idoso frágil no Brasil, fato inédito. Neste momento eu percebi que minha paixão estava se transformando em algo mais profundo e aí bate aquele friozinho na barriga, uma mistura de medo, porque você é ainda imatura, e expectativa de que tudo vai ser belo.

Só no sexto período é que finalmente passamos a ter aula com Fisioterapeutas, tivemos que esperar três anos, para começarmos a entender o que é a Fisioterapia, a termos pacientes. É nesta hora que a paixão esfria ou se torna amor, para mim se tornou amor, com tudo que tem direito: alegria de conhecer este maravilhoso universo, medo de fazer alguma coisa errada, afinal vidas de pessoas nos eram confiadas, a necessidade de estudar, estudar, estudar e principalmente vontade de fazer dar certo.

Nesta fase você já começa a se posicionar em relação ao seu companheiro com mais maturidade, nem tudo lhe agrada, é necessário trabalhar nos defeitos, discutir, resolver problemas, mas junto com a maturidade vem também a responsabilidade e a grande descoberta: Ei… eu também não sou perfeita, tenho um monte de defeitos, ou seja qual é a minha contribuição de fato para o curso ser melhor? Para que a profissão seja melhor? E a cobrança de ambas as partes é inevitável…

Surge outra crise: o relacionamento vai adiante ou não? Prossegui. Sabe quando surgem professores que te inspiram ou quando você nota uma atitude maravilhosa da pessoa amada que te enche de vitalidade? Tive esta sorte e assim continuei, cada vez mais amando o curso e sobretudo a pesquisa e a docência. A ideia do casamento era cada vez mais frequente para mim. No nono período fiz um curso de verão de Neurociências na UNIFESP, um evento muito bacana, são selecionados apenas 30 estudantes no Brasil para fazerem o curso e foi neste momento que fiquei noiva com a Fisio, lá deslumbrei todo um futuro que queria construir como cientista, trabalhar num centro de referência internacional.

Mas ainda era um sonho… No último ano do curso foi o mais puxado porém o mais gratificante, trabalhávamos muito, muito mesmo e erámos cobrados como profissionais já formados, foi bonito de ver como todo mundo amadureceu e as preferências de cada um foram surgindo. Nesta fase você já sabe que o amor chegou, eu soube que ele estava presente, mas não sei te falar quando e nem como exatamente ele chegou, talvez a palavra chegar não seja a certa, acho que se transformou gradativamente.

Bate um medo novamente: estou virando gente grande e agora? Caso ou compro uma bicicleta? Eu casei, sabe quando? Durante o último ano estudei pra prestar a prova de mestrado do departamento de Psicobiologia na UNIFESP, pra quem não sabe, Psicobiologia é um dos ramos da Neurociência, sinceramente achava que não tinha a mínima chance, mas consegui passar e foi neste momento que decidi que era isso que queria, foi muito difícil sair de casa, do conforto, amor e proteção dos meus pais (pais da minha família e pais da FACFISIO), como em um casamento você não sabe se vai dar certo, é um “tiro no escuro”, mas existe aquele sentimento belo que te impulsiona a ter ousadia e coragem, é muito difícil sair da zona de conforto e dói, dói como o processo de crescimento nos impõe.

Agora, já casada, estou no processo de ter um filho! Sim, mestrado e doutorado são filhos!rsrs

Dão trabalho, mas a gente ama, não tem jeito! E é através dos meus “filhos” que descobri uma maneira de contribuir para a ciência e futuramente pretendo realizar o meu sonho que é ser professora, em minha cidade (quem sabe?) ensinando aos meus outros “filhos”/alunos a linda profissão que é a Fisioterapia e espero inspirá-los da mesma forma como fui inspirada.

Lílian Atalaia da Silva
Graduada em Fisioterapia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Mestranda em Psicobiologia pela Universidade Federal de São Paulo UNIFESP, bolsista pelo Cnpq.
Pesquisa o envelhecimento humano, suas alterações físicas (principalmente padrões cinemáticos da marcha), alterações cognitivas (em especial as funções executivas) e quedas em idosos.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (FAMILIAR) E SAÚDE

                                                                                                                                                                                                       Este olhar é de…

Luciana Xavier Senra – Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

A violência é um fenômeno que atinge a população mundial com graves prejuízos à saúde e bem-estar de indivíduos, famílias e comunidades. Na modalidade interpessoal, a violência doméstica ou familiar consiste em atos e omissões em detrimento do bem-estar, da integridade física e psicológica, da liberdade, da espiritualidade e do direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família (com ou sem laço consanguíneo) independente do nível cultural, social e econômico (Ministério da Saúde Brasileiro, 2001).

 
Schrader e Sagot (2000) definem o fenômeno como “todo ato ou omissão cometido por um membro da família em uma posição de poder, independentemente de onde ocorra, que prejudique o bem-estar físico ou a integridade psicológica, ou a liberdade e o direito ao desenvolvimento integral de outro membro da família” (p.10). O foco na família pode ser justificado em razão de “doméstico” dar margem para o entendimento de que a violência tenha que ocorrer em um determinado local ou espaço geográfico da residência dos envolvidos.

 
Dessa maneira, mesmo o termo doméstico referindo-se ao contexto das relações familiares e, por isso, envolver quaisquer integrantes da família (crianças, adolescentes, mulheres e idosos – as principais vítimas), a expressão violência doméstica por vezes é utilizada para referir-se especificamente à violência exercida pelo homem contra a mulher. O uso do conceito assim delimitado é verificado mais comumente relacionado aos Estados Unidos, enquanto no Brasil, a violência doméstica tem abrangido mais atos violentos, maus tratos e negligência direcionados especificamente às crianças e adolescentes. Entretanto, essa concepção no Brasil ainda pode ser considerada divergente tendo em vista a implementação de legislações específicas para situações de violência doméstica contra a mulher como é o caso da Lei 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha Stelko-Pereira e Williams (2010).

 
Na tentativa de especificar cada tipologia e contexto de violência interpessoal no ambiente doméstico, sobretudo daquela voltada contra a mulher e/ou que ocorre entre o casal, a Organização Mundial da Saúde-OMS apresenta a violência praticada entre parceiros íntimos (homo ou heterossexuais) ou a violência conjugal, compreendida como “qualquer comportamento que cause dano físico, psicológico ou sexual àqueles que fazem parte da relação” (Krug et al, 2002, p.91).

 
O contexto de violência doméstica, independente de tais divergências, traz para os envolvidos, vítimas diretas e indiretas, prejuízos de diversas proporções, mas é na saúde que os impactos são mais evidentes. Dentre tais impactos, destacam-se: (a) agressões físicas com lesões corporais e traumas no aparelho músculo esquelético decorrentes de tapas, socos, chutes e uso de objetos; (b) abuso psicológico caracterizado por intimidação, abuso de poder numa relação desigual, constante desvalorização e humilhação causando transtornos de humor, de ansiedade, baixa estima por si mesmo, alimentares e do sono; (c) relações sexuais forçadas (abuso) e outras formas de coação sexual que culminam em doenças sexualmente transmissíveis e lesões do aparelho genital; (d) condutas controladoras que incluem isolar uma pessoa de sua família e amigos, monitoramento de seus movimentos e restrição do acesso às informações ou à assistência às necessidades básicas (negligência); (e) abandono; (f) extorsão financeira (contra idosos); e (g) danos ao patrimônio da família.

 
Atualmente, no Brasil, os referidos tipos de impactos são traduzidos pelos dados do Mapa da Violência no país (Waiselfisz, 2012), dentre os quais estão os óbitos por causas externas. Isto é, o estudo revelou, entre outras coisas, que dois terços dos óbitos por causas externas no país se devem a situações de violência coletiva ou doméstica, sendo que as principais vítimas são crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos de idade (53,2%) e mulheres.

 
Diante dessa realidade preocupante, é fundamental que o tema, com seus diversos prejuízos aos indivíduos, famílias e comunidades, seja estudado e abordado de distintas maneiras, seja com foco social, da saúde, jurídico e/ou da educação, e até através de interrelação desses seguimentos acadêmicos e profissionais, pois é sabido que todas as implicações de um ato de violência dentro ou fora do contexto doméstico/familiar colocam os seres humanos em condições de vítimas, autores e/ou testemunhas de tal ato, portanto, não isentos ou alheios a esse grave problema de saúde pública nacional e internacional.

 

Referências

Krug, E.G., Dahlberg, L.L., Mercy, J.A., Zwi, A.B., & Lozano, R. (ed.) (2002). World report on violence and health. Geneva, World Health Organization.
Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. (2001). Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço. Brasília: Ministério da Saúde.
Shrader, E., & Sagot, M. (2000). Domestic violence: women’s way out. Pan American Health Organization. Washinton: States Unites of America.
Stelko-Pereira, A.C.; & Williams, L.A.C. (2010). Reflexões sobre o conceito de violência escolar e a busca por uma definição abrangente. Temas em Psicologia, 18 (1), 45-55.
Waiselfisz, J. J. (2012). Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil. Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos-CEBELA. Disponível em: < http://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/MapaViolencia2012_Criancas_e_Adolescentes.pdf&gt; Acesso em 14 de maio de 2012.

 

Luciana Xavier Senra

Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora na linha de pesquisa Processos Psicossociais e Saúde, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-CAPES. Possui graduação em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (2007). Atualmente é membro da Asociación Psicológica Iberoamericana de Clínica y Salud-APICSA e do Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social-NEVAS. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social e Saúde Coletiva, atuando principalmente nos seguintes temas: violência doméstica, violência entre parceiros íntimos e bullying.