Desigualdades

Hoje o post tem um certo tom desabafo… há algum tempo venho ressaltando as conexões entre desigualdade e saúde no nosso país, na verdade sobre o quanto a desigualdade de maneira geral é uma ferida a ser tratada na nossa sociedade.

Juiz de Fora (cidade onde moro) entrou maio em profundo choque com um homicídio “triplamente qualificado”. Como sujeito de um mundo violento, acabei ouvindo os detalhes da noticia de longe, com uma certa indignação clichê, confesso. Até que ontem recebi um recado de uma amiga me questionando se eu não conhecia um dos autores do crime e foi, então, que reconheci um rosto que já havia feito parte do meu afeto, e desabei em um pranto compulsivo. Me lembrei deste rosto, também aos prantos, contando do abandono, das frequentes agressões que sofria, da sua carência e das suas limitações, intervi junto com outros amigo quando as oportunidades de dinheiro tortuosas apareceram para ela e vimos um tempo de bonança com a perspectiva da formação de uma nova família. Ao ler a notícia do homicídio me senti com raiva, raiva das vezes em que fui ingênua de acreditar que aquela pessoa poderia entender sobre cristandade beneficente sem sequer ter o pão de cada dia, de entender sobre o afeto se o afago que lhes caía era o punho cerrado, entender do mundo das ideias se aos 15 anos ainda não sabia ler e mal tinha noção do mundo além da sua rua. Fiquei com raiva dos sábados em que, depois dos nossos encontros, eu regressava ao lar cheia de mim com espírito em enlevo enquanto ela voltada ao lar para ser espancada e, o pior, tornar a agressão, a verdade da sua vida. Ontem observei a reprodução dessa roda da vida chamada miséria humana e chorei, não apenas pela raiva, mas porque me senti culpada por ter tanto (que nem é tanto materialmente, mas é muito se comparado ao que esta suposta criminosa teve), por não saber ter feito algo de melhor por ela, por ser tão estúpida de acreditar que versículos e leituras poderiam fazer diferença para quem não tem nada e por viver em um mundo que alimenta desigualdades atrozes… me coloquei em seu lugar, imaginei a dor de um (vários) chutes no crânio e o sentimento de desamparo que podem ter sentido. Sei lá … raiva e culpa…

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