Comportamentos e crenças em Saúde: uma breve ideia

Mais uma vez buscando interagir diferentes dimensões da saúde humana, que tal bater um papo sobre comportamentos e crenças em saúde?

O conceito de ‘saúde’ vem sendo progressivamente reelaborado através do tempo, deslocando-se do status individual, caracterizado pela ausência de

Priscylla Knopp Fisioterapeuta e Mestre em Psicologia/ Processos Psicossociais em Saúde - UFJF

Priscylla Knopp
Fisioterapeuta e Mestre em Psicologia/ Processos Psicossociais em Saúde – UFJF

doença e pautado no combate da enfermidade para uma abordagem mais ampla que considera a saúde como resultado de fatores que envolvem as dimensões física, psíquica e social (Backes & colaboradores, 2009).

Esta visão cada vez mais integral permite compreender que saúde não é um estado homeostático puramente biológico, ao contrário, envolve o contexto social, cultural e histórico dos indivíduos. Compreender isso nos possibilita ver uma concepção mais ampliados de saúde e até mesmo de diferentes autoconceitos de saúde, pois entende-se os sujeitos como atores ativos em seus próprios processos de saúde – doença (Carvalho & Luz, 2009; Backes & colaboradores, 2009; Becker & colaboradores, 2009; Pontieri & Bachion, 2010).

Como ator principal do seu processo  de saúde e doença, captar e entender as idéias, conceitos e convicções, ou seja o conjunto de crenças destes indivíduos é imprescindível para entender o “porque e para que” dos seus comportamentos em saúde (Ronzani, 2007; Pontieri & Bachion, 2010; Barletta, 2010).

A concepção de saúde no contexto específico do sujeito gera comportamentos em saúde próprios dele, o que podemos fazer sabendo disso?

Elaborar ações mais efetivas na saúde desse(s) sujeitos, aumentando a aderência aos tratamentos, eficácia do auto cuidado e promoção de saúde. Poderia-se contribuir para melhora da qualidade de vida e aumento da longevidade, afinal estas atuações estarão alicerçadas na realidade específica das próprias pessoas (Sá & Gómez-Puerto, 2009; Barletta, 2010).

 

Comportamento e as crenças em saúde

Mas afinal … o que é isso?

Para Kasl e Cobb (1996) e de Matarazzo (1984) apud Ogden (2004)  o comportamento está intimamente relacionado ao status de saúde do sujeito se diferenciando pelo foco de suas tipologias, onde o primeiro estabelece três comportamentos em saúde que se dividem em antes e depois do adoecimento na forma de (1) Comportamento em saúde, que impede o aparecimento da doença, (2) Comportamento de doença, que implica em encontrar o tratamento e o (3) Comportamento de doente, que implica em permanecer saudável. Matarazzo estabelece os comportamentos em saúde como potencializadores ou não potencializadores para o adoecimento na forma de comportamentos prejudiciais a saúde, comportamentos patogênicos, e os de proteção à saúde denominados de imunogênicos. (Ogden, 2004)

Nota-se através das tipologias destes autores que as respostas psicológicas podem influenciar a saúde de forma direta através de modificações propriamente físicas (por exemplo, redução de estresse através do aumento as estratégias coping como comportamento imunogênico) e indiretamente através da mediação cognitiva reduzindo comportamentos patogênicos e favorecendo os imunogênicos (Barletta, 2010).

As crenças em saúde estão diretamente relacionadas ao comportamento em saúde e perpassam pela capacidade do indivíduo de ter auto-eficácia, do lócus de controle e do otimismo irrealista que se relacionam com a capacidade do indivíduo em elaborar estratégias para prover sua auto saúde, de modificar seu status de saúde e de compreender a real propensão de se adquirir acometimento/agravos e periculosidade da manutenção de comportamentos que propiciam esta situação.( Barletta, 2010; Ogden, 2004)

Em vista destas características é necessário elaborar estratégias de captação dessas crenças e comportamentos assim como formatos que permitem operacionaliza-las a benefício dos sujeitos, fato este que contribuiu para a elaboração dos chamados modelos estruturados de crenças e comportamentos de saúde, também conhecidos como Modelos de Cognição Social.

 

Fonte imagem: http://www.guiainclusivo.com.br/tag/saude-mental/

Fonte imagem: Guia Inclusivo

Modelos de Cognição Social

Os modelos de Cognição Social analisam os comportamentos em saúde apontando que estes comportamentos podem ser compreendidos em função das crenças, percepções e representações oriundas de um determinado contexto social (Barletta, 2010; Ogden, 2004). Hoje vamos citar e descrever brevemente os Modelos de Crenças em Saúde, o Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento e Modelo de Promoção de Saúde.

O Modelo de Crenças em Saúde assim como o de Promoção de Saúde possuem convergência no que tange a abordagem de comportamentos que protegem à saúde. Entretanto se diferem quanto ao âmbito de atuação desses comportamentos já que o Modelo de Crenças foca o a prevenção em saúde se ocupando de comportamentos preventivos oriundo das mudanças do comportamento diante de percepção de ameaças potenciais. Esta percepção ocorre através da noção de susceptibilidade à doença, da severidade da mesma, dos benefícios percebidos pelas consequências positivas de determinadas ações e pela avaliação do custo-benefício de práticas em saúde. O modelo de Promoção da Saúde, por sua vez, atua nos comportamentos de promoção de saúde necessitando para isso compreender a interação do conhecimento, dos sentimentos, ações e eventos ambientais como disparadores da manifestação de determinado comportamento que poderá prover saúde (Brevidelli & Cianciarullo, 2001; Ogden, 2004; Barletta, 2010; Brito 2010).

O Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento, diferentemente dos modelos anteriores que buscam antevir comportamentos potencialmente benéficos ou não para a saúde, focaliza na modificação dos comportamentos que já são desenvolvidos pelos sujeitos. Este modelo trabalha as diferentes fases da mudança de comportamento focalizando na capacidade do sujeito perceber ‘per se’ a necessidade da modificação através da pré-intenção da mudança, intenção da mudança, preparação para executá-la, ação propriamente dita e por fim a manutenção da modificação (Barletta, 2010; Ogden, 2004).

Estes modelos de forma geral têm como objetivo a estimulação de comportamentos saudáveis baseados na percepção e/ou modificação das crenças que podem interferir neste processo. Desta forma, analisar o potencial e as limitações destes modelos cria mecanismos que possibilitam a atuação eficaz de prevenção, promoção e tratamento em saúde abordando as crenças como influenciadoras na percepção e nos comportamento frente a eventos ou situações sociais e consequentemente o potencial alvo das intervenções do profissional de saúde.

 

Referências bibliográficas:

Backes, M. T., & colaboradores. (2009). Conceitos de saúde e doença ao longo da história sob o olhar epidemiológico e antropológico. Revista de enfermagem da UERJ, 111-117.

Barletta, J. B. (2010). Comportamentos e Crenças em Saúde: Contribuições da psicologia para a Medicina Comportamental. Revista de Psicologia da IMED. 307-317.

Brito A M. M. (2010). Representações sociais, crenças e comportamentos de saúde: um estudo comparativo entre homens e mulheres, Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de pós-graduação em psicologia, Mestrado em psicologia, Laboratório de psicologia social da comunicação a cognição – LACCOS. Santa Catarina, RS.

Becker, S. G., & colaboradores. (2009). Dialogando sobre o processo saúde/doença com a Antropologia:entrevista com Esther Jean Langdon. Revista Brasileira de Enfermagem, 323-326.

Carvalho, M. C., & Luz, M. T. (2009). Práticas de saúde, sentidos e significados construídos:instrumentos teóricos para sua interpretação. Interface comunicação, saúde e educação, 313-26.

Pontieri, F. M., & Bachion, M. M. (2010). Crenças de pacientes diabéticos acerca da terapia nutricional e sua influência na adesão ao tratamento. Ciência & Saúde Coletiva, 151-160.

Brevidelli. M. M. & Cianciarullo, T. I. (2001). Aplicação do modelo de crenças em saúde na prevenção dos acidentes com agulha. Revista de Saúde Pública.193-201

Ogden, J. (2004). Psicologia da Saúde. 2a edição. Lisboa: CLIMPSI, 2004.

Ronzani, T. M. (2007). A Reforma Curricular nos Cursos de Saúde: Qual o Papel das Crenças?. Revista Brasileira de Educação Médica. 38 – 43.

Sá, C. A., & Gómez-Puerto, J. R. (2009). Conceito de saúde: caminhos para a construção de uma proposta trandisciplinar e participativa. Revista Andaluza de Medicina del Esporte, 35-38.


[1] Este trabalho foi apresentado como requisito obrigatório para conclusão da disciplina Teorias Psicossociais e Saúde. Apresenta de forma breve e restrita uma discussão relevante dentro da formação profissional em saúde, portanto quem se interessar … mãos à obra e à pesquisa !!!

 

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