Marxismo e Saúde

Ao ler o artigo “Karl Marx: os altos e baixos de uma ideologia” na Carta Capital, refleti sobre as implicações do marxismo no campo da saúde, à luz de uma das autoras que respeito muito, Minayo.

Em um breve panorama  a produção intelectual sobre saúde/doença na América Latina durante as décadas de 1950 a 1970, Minayo (2010, citando Nunes, 1985) aponta que, na década de 1950 as teorias funcionalistas e culturalistas da saúde foram centrais nos trabalhos acadêmicos, tendo como resultado prático a “implementação de desenvolvimento e organização de comunidade” (Minayo, 2010 , p.79).

Cronologicamente situado neste período, encontra-se o conceito de Saúde apresentado pela OMS de 1948, que amplia a concepção de saúde ao propor a inserção da dimensão psicossocial a partir do enunciado “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de doenças ou enfermidades” (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2012).

Em contrapartida, o pensamento fenomenológico predominou nas décadas de 1960 e 1970 com sensíveis repercussões na saúde coletiva, onde efervesceram questionamentos sobre a onipotência/onipresença do “Estado sobre os indivíduos e grupos de referência, além da arbitrariedade impositiva das classes dominantes por meio dos sistemas de saúde” (Minayo, 2010, p.79). Esta vertente negava os princípios positivistas e funcionalistas, que tinham como prática a concepção de todo como sinônimo de massas, fortalecendo a afirmação dos “direitos individuais, do principio da autonomia, das pessoas, e da construção de grupos mediadores entre o Estado e as grandes instituições médicas e sanitárias” (Minayo, 2010, p.79).

Para Minayo (2010), o fortalecimento da perspectiva fenomenológica foi de grande importância na superação dos modos de entendimento e ações em saúde de molde positivista sociológico, se orientando pelos significados subjetivos de saúde/doença e na “condenação teórica do anonimato, das leis gerais e das invariâncias” (Minayo, 2010, p.79).

marxNa década de 70, onde gostaria de chegar efetivamente, houve uma ampliação de trabalhos sob orientação marxista ganhando relevância a concepção de saúde associada à resistência da população ao autoritarismo e à violência política vigente no período da ditadura militar, resultando em propostas de mudanças estruturais na distribuição e acesso à saúde, esta entendida como bem social (Minayo, 2010).

Para a autora, a interpretação marxista da saúde se desenvolveu sob o clima dos movimentos sociais em busca do direito universal à saúde. O materialismo histórico e dialético foi o fundamento para interpretação do processo saúde-doença, tendo, portanto, a premissa da posição de classe “como elemento fundamental na explicação da distribuição da saúde e da doença e dos tipos de patologia predominante” (Minayo, 2010, p.125).

Para refletir com Minayo (p.125 e 126)…

1. O avanço científico e tecnológico da medicina não correspondeu às melhorias de saúde

2. A distribuição dos serviços perpetua a inversão das necessidades ante o poder econômico

3. As péssimas condições de vida e saúde da população exigem respostas que superem o modelo unicausal-biológico das doenças

4. A importância da consciência da própria sociedade de que o acesso à saúde é um bem inegociável

5. A importância dos movimentos sociais, “definindo e reivindicando que a provisão de saúde é dever do Estado e direito do cidadão” (Minayo, 2010, p.126).

Parece bem oportuno na atual situação da saúde brasileira … não?

MINAYO M. C. de S. (2010). O Desafio do Conhecimento: Pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo. Hucitec.

 

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