Por que ou para que um fisioterapeuta estudaria religião?

Entre Natal e Carnaval, cá estou novamente… Aproveito para agradecer a todos o carinho e incentivo constante com o Blog assim como as contribuições dos vários colegas que deixaram aqui sua valiosa contribuição.

Vamos lá…

interrogacaoNão é original de minha parte estudar temas aparentemente distantes da prática do Fisioterapeuta, entretanto, sempre que comento o tema de minha dissertação uma pergunta, natural, surge: Por que/para que uma fisioterapeuta estudaria religião? No meu caso específico… que tem a ver saúde do idoso com Espiritismo?

As atividades de pesquisa, extensão e docência representam um grande desafio para o Fisioterapeuta que deseja atuar sob a égide de uma concepções ampliadas de saúde. As principais causas desta dificuldade estão relacionada à nossa “infância” enquanto profissão regulamentada (decreto lei N. 938 – de 13 de outubro de 1969 – COFFITO, 2012) e que a ainda não superou a predominância de concepções reabilitacionais, secundaristas e de uma ideia de saúde circunscrita ao biológico e ao curativo.

A hegemonia desta concepção na formação do Fisioterapeuta polariza o conhecimento em um aporte teórico-prático biopatológico que pouco entende o sujeito como um ser onde “o corpo humano é atravessado pelas determinações das condições, situações e estilos de vida.” (Minayo, 2010, p.39).

O estudo do movimento humano – objeto específico do meu trabalho profissional – não é restrito ao seu componente orgânico como o próprio Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional – COFFITO sinaliza ao proferir a definição de Fisioterapia::

“Fundamenta suas ações em mecanismos terapêuticos próprios, sistematizados pelos estudos da Biologia, das ciências morfológicas, das ciências fisiológicas, das patologias, da bioquímica, da biofísica, da biomecânica, da cinesia, da sinergia funcional, e da cinesia patologia de órgãos e sistemas do corpo humano e as disciplinas comportamentais e sociais.” (COFFITO, 2013, grifo nosso).
Embora constem como disciplinas de formação os aspectos psicossociais ocupam um lugar tímido nos currículos acadêmicos e mais ainda na prática profissional. Esta fragilidade na formação do Fisioterapeuta, sobretudo minha, foi tema de inúmeros debates quando derivavam de situações onde minha atuação profissional exigiu conhecimentos diferenciados.

Duas dessas experiências se desenvolveram em núcleos Espíritas, tanto como confissão religiosa pessoal quanto como espaço de estágio em Fisioterapia Geriátrica. Essas duas experiências foram palco desta busca por uma compreensão mais ampla de saúde, principalmente sobre a função religiosa nos mecanismos sociais e psíquicos nos determinantes da saúde do idoso.

Mafalda e as ideias do que realmente importa.

Mafalda e as ideias do que realmente importa.

Associada à este fator foi de grande importância a minha experiência como supervisora de estágio em atenção primária à saúde.Neste momento ficou claro que intervir em sujeitos portadores de sequelas cinesiológicas funcionais em sua comunidade não os destituía do contexto social em que estavam inseridos ou mesmo das crenças que compartilhavam.

Era necessário conhecer e atuar além do habitual Fisioterapêutico, por vezes lembrar a esses sujeitos de sua existência, de sua autonomia. Muitas vezes percebi que o único local onde eles se sentiam “Pessoas”, “alguém para alguém” era em seus núcleos religiosos.

Como Fisioterapeuta e como supervisora coube a necessidade de não reproduzir os moldes de saúde que critico o que fez crescer ainda mais meu interesse sobre a área dos processos psicossociais em saúde, sobre os diferentes funcionamentos do ser humano e de modo específico sobre a experiência religiosa na saúde.

Ratificando a justificativa pessoal da escolha do tema a literatura científica mostra que as discussões a respeito dos conceitos e paradigmas de saúde caminham para concepções que envolvem cada vez mais os aspectos psíquicos, sociais e espirituais compreendendo-os como parte integrante do conjunto humano. A aproximação entre as ciências da saúde e as ciências humanas, principalmente da sociologia, antropologia e psicologia, favoreceu este aprofundamento.

Dentre estas dimensões socioculturais formadoras das representações “de mundo” encontra-se a religião tema crescente de trabalhos acadêmicos que articulam a experiência religiosa com a saúde, inclusive entre idosos. Há cada vez mais indícios de que a população idosa parece possuir maior religiosidade, provavelmente por fatores intrínsecos ao processo de envelhecimento como reflexões sobre a transitoriedade da vida e convivência com a morte, perda de autonomia e perda de representatividade nos loci familiar e na sociedade como um todo.

Quem sabe entendendo melhor esta relação não posso favorecer estratégias de intervenção condizentes com as características próprias do idoso que segue determinada crença? Quem sabe o núcleo religioso não seja um lócus de trabalho onde posso desenvolver estas atividades?

A verdade é que não tenho uma resposta certa para dar! Venho percebendo que estudar este tema flexibilizou os muros que me definem como Fisioterapeuta, mas até o momento não me senti menos profissional ou menos qualificada na minha prática…

Citações:

Paulo Freire: Pedagogia da Autonomia

Maria Cecília de Souza Minayo: O Desafio do Conhecimento.

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