Profissionais humanos … que tal humanizar-vos?

Marcus FariaFilósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Marcus Faria
Filósofo com Pós Graduação em Filosofia Moderna e Contemporânea.

Este olhar é do…

“Uma mulher de 36 anos deu entrada no hospital no leito 437 às 13h decorrente de um acidente doméstico por queimadura. Seu quadro é estável, já se encontra devidamente medicada e sob cuidados clínicos”.

Casos assim são costumeiros na vida de vários agentes de saúde, devidamente especializados e treinados para lidar com situações adversas.

A bagagem científica recebida na faculdade, dada de forma generalizada e objetiva, permite aos profissionais o manejo de terapias e soluções cabíveis, bastando identificar o problema e observar a gravidade do caso para saber o que e como fazer os procedimentos apropriados.

É o mínimo a se exigir de um bom profissional de saúde, pois situações assim implicam a vida de pessoas e seus riscos de perdê-la ou ter sua saúde debilitada. Correr contra o tempo e a demanda de pessoas que entram e saem de hospitais, clínicas e centros de saúde exige ações rápidas e concisas.

O problema de se adotar unicamente uma postura científica ao se trabalhar com pacientes é esquecer que aquelas pessoas não são apenas pacientes. São vidas em potencial, com suas experiências pessoais, hábitos de vida, crenças sociais, etc.

Não se trata apenas de uma mulher de 36 anos no leito 437 depois do meio dia. Pode ser uma mãe ou uma empregada que preparava o almoço e distraída com alguma preocupação ou por conta de alguma doença que não sabia acabou deixando óleo quente cair sobre as mãos.

Tal discurso parece um tanto emocional e patético se concretizarmos a ideia de que é impossível se solidarizar ou querer inteirar-se dos problemas e angústias de cada um dos milhares de seres que habitam provisoriamente um leito hospitalar. É até mesmo absurdo querer esperar de um médico, enfermeiro ou fisioterapeuta vontade para aprender conceitos filosóficos e humanistas para lidar com questões que são obrigações de um psicólogo ou assistente social. Resumindo: “Cada macaco no seu galho! Deixe medicar quem tem que medicar e terapia para quem faz terapia”.

Realmente não faz sentido algum querer que um profissional de saúde seja gabaritado para dar lições de comportamento ou identificar desvios psicológicos. O que é interessante esclarecer é a importância de se deixar um pouco de só enxergar números, causa e consequência, classificações métricas.

Como já foi dito é quase impossível querer saber detalhes de tantas pessoas que vem e vão a todo instante. O importante não é o tempo e a rotatividade de pessoas, mas o momento em que paciente e agente estão frente à frente, são aqueles breves minutos de uma consulta, de uma medicação, de uma sessão de fisioterapia.

Para o paciente surge a sensação de não ser apenas mais um, mas de ser um a ser atendido, a ser dado atenção. Para o agente aumenta-se a probalidade de conhecer melhor a intimidade da pessoa, para que nela ele possa identificar a origem específica de um problema, se aquela pessoa mantém hábitos favoráveis ou não para se recuperar melhor, se há no jeito dela viver uma forma de se adaptar a um tratamento, etc.

Enquanto um paciente se sente acolhido um agente colhe informações mais precisas e subjetivas.

Mas na prática o que seria essa humanização e como procedê-la? Já foi dito que há uma postura mais subjetiva: cada um visto como cada um.

O contato é fundamental, pois é por ele que se faz uma troca: o paciente passa informações e o agente passa segurança. E essa segurança seria muito bem vinda se acompanhada de uma certa emotividade, que pode contribuir para uma sensação de bem estar e receptividade.

Um paciente que se sente seguro e acolhido com certeza tem grandes chances de melhorar mais depressa e facilmente. Ocorre nesse processo uma sensação humana básica e que todos nós gostamos: o prazer.

Somos direcionados ao que nos dá prazer e tudo aquilo que nos afasta de certa forma desse sentimento atrasa, torna o processo lento, angustiante, causa ansiedade. E estar num processo de recuperação em um hospital ou clínica não é nem um pouco agradável. São os lugares mais improváveis de uma pessoa ter algum prazer! Por isso seria muito bem vinda uma sensação assim num momento tão incômodo.

Aquém das vantagens de um processo prazeroso, que merecem um texto à parte, como poderia um agente de saúde realizar um atendimento mais humanitário?

Uma forma seria se especializando em cursos de humanas, acumulando conhecimentos filosóficos e psicológicos que atuariam como veículo, como acréscimo à experiência de cada profissional.

Faz-se importante a vontade de cada agente de saúde querer fazer um curso em humanas; mas fazê-lo não é garantia de tornar o atendimento mais humanitário. Vale muito a pena instruir-se, ter contato com esse lado mais antropológico, mas tornar a atitude clínica mais humanitária vai além. Tais cursos, sem querer desvalorizá-los, são, na verdade, um meio termo, um abono, mas não a solução. É importante chamar a atenção que despertar uma ação humanista vem de cada pessoa e cursos são apenas meios que lapidam esse lado humano anestesiado pelas exigências objetivas da ciência.

Se informar sobre cultura, ideias e teorias terapêuticas é muito bem vindo ao agente de saúde para que ele seja capaz de esclarecer algumas dúvidas, questionamentos. Aumentaria não só a qualidade de sua vida profissional como contribuiria bastante para sua própria evolução como Ser Humano.

Mas o grande passo a ser dado viria de sua própria vontade de criar pontes e aumentar o contato com cada paciente. Deixar um pouco de lado a postura maniqueísta de “saudável-doente, vida-óbito, causa-consequência” e se permitir aprofundar um pouco mais na experiência única de cada pessoa.

Podemos alegar vários impedimentos para que a Saúde continue sendo apenas um palco medicinal e que seus profissionais mantenham uma postura objetiva para simplesmente conseguir concluir com eficácia a jornada de trabalho. Mas vale a pena lembrar que, em algum momento, os agentes de saúde também tornam-se pacientes.

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Um pensamento sobre “Profissionais humanos … que tal humanizar-vos?

  1. Andréa disse:

    Vale lembrar que Saúde não se resume em ausência de distúrbios no corpo físico. É muito mais amplo o conceito!!!! Então não justifica a existência de profissionais de Saúde que, apesar de poderem ter conhecimento segmentado, não sejam capazes de serem humanos.

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