Redes sociais virtuais, imprensa, indicadores urbanos e violência

Luciana Xavier Senra - Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Luciana Xavier Senra – Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

Este olhar é da …

 

Há alguns meses fui adicionada em um grupo de discussão virtual de uma rede social sobre a política local e as influências da situação nacional sobre ela. Passado o calor das eleições, quando todos expressaram suas indignações, posicionamentos e preferências por este ou aquele candidato ou partido político, restaram nesse grupo as discussões acerca de diversos temas.

Dentre eles, a composição da câmara de vereadores, quem será seu novo presidente, reforma política, índices sociais e o que mais me chamou atenção: o crescimento (ou não) de nossa cidade nos seguimentos básicos de habitação, renda, educação, saúde e segurança pública. Este último foi decorrente de um post sobre uma matéria do jornal de circulação local intitulada “JF cai de 3º para 49º lugar em Minas no índice social” do dia 04 de dezembro de 2012.

O autor dessa postagem destacou “das cinco dimensões avaliadas (habitação, renda, trabalho, saúde/segurança e educação), Juiz de Fora apresentou queda de desempenho em quatro delas. Apenas no critério educação não houve retrocesso, com a cidade obtendo o mesmo resultado do estudo feito em 2000”.

O questionamento que não me deixou permanecer apenas refletindo sem me expressar e me impulsionou a comentar esse post foi: “como não considerar a manutenção de um resultado também um retrocesso se já se passaram 12 anos e nada mudou? Queda de desempenho e involução não são sinônimos, mas ambos tem impactos significativamente prejudiciais para indivíduos, famílias e comunidades”.

Em tempos de fluidez e repercussão de comentários na velocidade da luz, o comentário vale mais pela quantidade de curtidas que ganhou do que pelo mal estar ou indignação revelados. Como meu comentário obteve apenas uma curtida, meu questionamento e nada foi a mesma coisa. Valem, como destacou um membro do grupo virtual, comentários de famosos do tipo “to na área…” com 52.825 curtidas. Não sou tão rápida assim com tantas informações disseminadas virtualmente, portanto, já me antecipo dizendo que também não sou frequentadora assídua das redes sociais e grupos virtuais de discussões, embora alguns temas tenham me chamado atenção, sobretudo a partir da última semana do mês de novembro.

Desde o período ressaltado, o mesmo jornal de circulação local, até por volta dos dias 08 e 09 de dezembro do ano findouro, trouxe uma rápida série de reportagens sobre a temática da violência e segurança pública na cidade no corte temporal dos últimos dez anos, com matérias como “Geração exterminada pela violência” e “Acesso a armas acirra violência”.

A primeira delas mostrava que de 2002 até 2012 “quase a metade das mortes violentas ocorridas em Juiz de Fora este ano – 38 de 85 homicídios – tem como vítimas jovens, a maioria negros e pobres” e na segunda foi evidenciado que “em uma década, confrontos juvenis nos quais eram usados paus e pedras, foram substituídos por crimes com tiros”.

Esses dados, infelizmente, são consoantes à realidade nacional e com das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ou, mais bem explicitando, com cidades do mesmo porte que JF e até menores como Governador Valadares; como é revelado pelo Mapa 2012 da Violência no Brasil desde o mês de maio (época de seu lançamento), e divulgado, curiosamente, apenas agora, nos meses de novembro e dezembro, no auge da crise da segurança pública na cidade de São Paulo, após as eleições.

Voltando à realidade local, diária e semanalmente são divulgados assassinatos de adolescentes e jovens por rixas de gangues; assaltos à porta de residências; espancamentos às mulheres e, ontem, “confronto em residencial leva medo a 380 famílias”, quando a Polícia Militar foi chamada três vezes para conter o confronto entre os moradores do “Minha casa, minha vida” e aqueles de bairros vizinhos, que se utilizaram de paus, pedras, armas brancas e de fogo para se enfrentarem.

Sensacionalismos e o claro tendencionismo à direita da imprensa a parte, o fato revela, na verdade, que não basta dar teto e colocar as famílias debaixo para saírem da condição de pobreza extrema; para se protegerem da chuva que sempre ameaçou encostas e margens de rios. As pessoas estão sem saber o que é um lar; as crianças, adolescentes e jovens estão aprendendo a não ter perspectivas, a não terem mais sonhos, tamanha a ociosidade, tamanho o retrocesso nos seguimentos de trabalho, renda, habitação, saúde, segurança e as mesmas condições educacionais de dez anos atrás de nossa cidade.

O que não quer calar: onde está o poder público? Onde estão os cidadãos? Onde estão as diretrizes de aplicabilidade da inclusão sanitária, social e educacional? Onde está o cumprimento de diversas legislações para melhores qualificações e remunerações de profissionais que, no exercício de seu trabalho, podem contribuir para a redução de tanta desigualdade e fazer com a cidade pare de cair no ranking de indicadores sociais? Muitos de nós profissionais da saúde, da educação e da assistência social defendemos a inclusão daqueles com alguma necessidade especial física, cognitiva e sensorial (me desculpem se não usei a expressão correta), daqueles marginalizados por sua orientação sexual ou por sua cor/raça/etnia.

Muito certo, é nosso dever profissional e de cidadão. Mas e quanto aos incluídos fora da escola, da assistência social, da saúde e da segurança pública e, portanto, excluídos em grupos de traficantes de drogas e armas, em grupos rivais de gangues compostos, em sua maioria, por meninos usados para transporte e venda de armas e drogas, com apologia às facções criminosas de São Paulo e Rio de Janeiro, numa verdadeira escola para a criminalidade e envolvimento com atividades ilícitas? O que pensar? Com o que agir? O que e como fazer? De quem exigir?

Diante de tantos questionamentos, ainda me deparo com ausência de respostas e alternativas ofertadas pelo poder público de todas as esferas, de cada seguimento profissional e até das pessoas em geral, porque ao perguntar a elas e aos jovens das regiões daqui de JF onde há baixa infraestrutura social e onde tem ocorrido constantes confrontos de gangues, rixas de bairros como os de ontem (11/12) e de hoje (12/12) com mais agressões e violência e apreensão de drogas, assaltos, roubos… Elas me dizem: “ah! Isso aqui já é normal faz tempo!”. Ficaria decretado então que é normal conviver com violência e ausência de um mínimo de estrutura social?

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