O sinuoso desejo de emburrecer

olhar-thumbEm conversa com um amigo querido ouço a seguinte frase “sabe que sua guinada à esquerda me fez seu fã numero 1!”.

De momento rimos ambos, em deleite com uma agradável conversa… quando dei por mim estava “me auto self questionando a mim mesma sobre mim.”

A redundância, caros amigos, é proposital e apenas esclarece que, como diz a querida Mafalda, me apeteve “fazer turismo por mim mesma”.

A questão é … o que seria a guinada à esquerda?

De pronto pensei nas leituras de orientação marxista (Lowy, Minayo – melhor seria materialismo-histórico dialético) em que ando me debruçando, senso comum revolucionárias, perigosas, subversivas … afinal temos o hábito de somar marxistas, comunistas, socialistas no mesmo saco esquerdista ou comedor de crianças. Mas não…

Lembrei das palavras dos livros de Paulo Freire que andam percorrendo os meus textos e outras interessantíssimas vertentes da libertação com Boff e Martin-Baró. Mas também não…

Me questionei se era o curso (simplesinho, B-a-bá, mesmo, para analfabetos em filosofia) de Filosofia que estou completando e seu primeiro questionamento… Filosofia pra quê? – Começou a esquentar.

Mas foi quando comecei a ler João Ubaldo Ribeiro, mais especificamente, Política: Quem manda, porque manda, como manda, é que caiu a ficha. Minha questão não era o lado, era o todo… não esquerdei… ando me politizando !

Me politizando por que entendi o ponto de vista da precursão da materialidade sobre as ideias na dialética na concepção de Marx, me lembrando que é através do estranhamento das desigualdades no atendimento a saúde de populações vulneráveis que podem surgir novas concepções de saúde, novas ideias.

Me politizando por que entendi o que Freire quis dizer quando propos que toda a pratica educativa é politica portanto não é neutra. Daí caiu a ficha que o belo projeto político pedagógico que eu docilmente (quase citando Foucault agora rs) aceitei na minha formação me estimulou ser uma alienada.

Me politizei porque somei lé com cré na seguinte frase do Ubaldo “estamos imersos num processo político que penetra todas as nossas atitudes, toda a nossa maneira de ser e agir, até mesmo porque a educação, tanto a doméstica quanto a pública, é também uma formação política. ”

E o pior (ou melhor talvez) como diz Ubaldo.

“Assim, quando estamos pensando em cuidar de nossa vida apenas, sendo “apolíticos”, na verdade estamos somente com a vista curta ou então somos comodistas, não achando que as coisas estão tão ruins assim, para que procuremos fazer algo para mudá-las.

Quando alguém diz, como é freqüente lermos em entrevistas aos jornais, que “não liga para a Política”, está naturalmente exercendo um direito que lhe é facultado pelo sistema político em que vive.

Ou seja, em última análise, está sendo um político conservador, não vê necessidade de mudanças. Então não é apolítico, palavra que indica “ausência de Política”.

No máximo, falta-lhe a consciência de seu significado e papel político — significado e papel que todos têm —, uma coisa muito diferente. Pois o apolítico não existe, é somente uma maneira de falar, por assim dizer.”

Daí deu uma dor de estômago, uma necessidade sinuosa, provocante de emburrecer, porque, dá conta de toda essa informação e comprometimento com a sociedade, passa a ter um peso na consciência muito mais significativo.

Uma vontade como diz Ubaldo, comodista, dos que ainda trilham vacilantes em busca de uma consciência política ampliada, de entender verdadeiramente o descaso com a Saúde Pública com a situação de EBSH, de entender verdadeiramente porque a Ligia Bahia diz que o Brasil está na contramão das politicas de saúde (entendida como direito universal) no mundo, de entender verdadeiramente qual o minha responsabilidade no mundo.

Nesse momento o sinuoso emburrecimento foi perdendo espaço para a ideia de conquista do conhecimento, da conquista da liberdade de pensamento, da conquista de algo mais parecido com o verdadeiro sentido de cidadania e autonomia que transcende a urna eleitoral.

A guinada para o todo anda me fazendo caminhar pela estrada da politização.

 

Um abraço Gabriel, este post, tem seus cinco dedos e grande parte de seus questionamentos.

Gustavo, a Mafalda foi o seu melhor presente, ela, e o seu incentivo constante.

 

 

 

 

 

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12 pensamentos sobre “O sinuoso desejo de emburrecer

  1. Marcus Faria disse:

    Que texto gostoso de ler! Ao mesmo tempo bastante esclarecedor! Lembrou-me a famosa frase de Aristóteles: “Somos animais políticos”. Por quê? Pelo simples fato de a todo momento ficarmos de frente com situações que nos exigem uma postura, um opinião, uma atitude. Nos deparamos com carros ultrapassando semáforos, lugares reservados a portadores de deficiência ocupados por qualquer um, preços cobrados a mais, etc. Coisas que concordamos ou discordamos baseados em nossos motivos. Os outros animais (ainda) não têm essa compreensão e o termo “político” na frase de Aristóteles funciona como um adjetivo: nos qualifica como agentes, operários de ações. Quando ele o disse lá no período de decadência social da Grécia não se referia aos partidos, às discussões públicas da época, mas ao dia a dia, à intimidade de cada um, àqueles momentos que paramos para pensar em nosso comportamento. Acredito que é deste animal político que vc referiu-se no texto, não do partidarismo, da proselitismo, da classificação francesa de esquerda/direita. E vc foi muito clara ao fazer suas considerações!

  2. Gustavo Riani disse:

    Excelente Minha Menina.
    Eu ainda engatinho nessa área. Mas é sempre bom ler essas palavras q traduzem bem suas ideias. Como sempre escrevendo e crescendo.
    E, eu só incentivei pra vc trazer à tona seu potencial 😉
    TE AMO MUITO

  3. Gabriel Lopes Garcia disse:

    “Não é contrário à razão preferir a destruição do mundo a um arranhão no meu dedo.” David Hume
    espanta ver a atualidade do filósofo do século XVIII diante da alienação consumista que verificamos mundo afora…
    interessante observar também a igualdade entre as ações politicas dos diferentes partidos, unidos, na prática, pelas mesmas ideologias de poderio econômico-social

  4. MARCO AURÉLIO disse:

    Pri, seus posts são esclarecedores, “PERTURBADORES” e ao mesmo tempo nos fazem mexer na cadeira, incomodam no sentido bom do termo…continue assim…abração.Marco.

  5. Luciana Senra disse:

    Seu blog é muito legal!!! Parabéns!!!

  6. Selme disse:

    Priscylla, que legal seu blog!
    Este post teve o poder de provocar os mais íntimos questionamentos, ainda que estivesssem adormecidos…
    Parabéns!

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