Da prostituta ao viciado e do agressor ao corrupto… qual o limite da sua atuação profissional?

Quem inspirou este post foi a cara amiga de profissão Fisioterapeuta Thaís Botelho da Silva que mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Cenas do filme Carandiru
O relato dramatizado de um médico que trabalha dentro de um presídio

Em seu Blog Fisio em Terapia Thaís divide conosco o seguinte relato:

“Hoje no trabalho numa conversa informal, veio o assunto atendimento a presidiários internados. Com a maior inocência, falei que eu não tinha problema em atender estes pacientes, que acreditava que era um paciente como outro e que prestaria atendimento conforme a necessidade de saúde. Nesse momento, 8759 pedras levantaram-se contra mim e ouvi diversos comentários infelizes. Coisas do tipo, “eu não atendo presidiário”, “esses pacientes não merecem atendimento diário”, “a Thaís vai evangelizar os pacientes e perdoar todo mundo agora” e mais um monte de tentativas frustradas pra me fazer tentar mudar de ideia.”

Este relato sugere de certa forma uma série de questionamentos de fundo moral, mas que se articulam aos princípios doutrinários do SUS de UNIVERSALIDADE, EQUIDADE, INTEGRALIDADE.

A universalidade diz respeito ao acesso… Garantido como direito do cidadão e dever do Estado. Muito bem… situações como esta vivida por Thaís são extremamente comuns para quem trabalha saúde em contextos de vulnerabilidade, contextos onde as mazelas chocam nossa sensibilidade e retratam “vidas secas” não apenas as de Graciliano Ramos mas secas de saberem-se gente.

Quando supervisora de estágio em APS passei por situação semelhante, entretanto o objeto não era um presidiários mas um usuário de crack e outro agressor de criança. No ímpeto moralista ou temente a ser objeto da agressão do outro, surge a questão: devo atendê-lo, ou melhor, suas atitudes fazem com que MEREÇA ser atendido?

Bem… Perguntas como esta só nos levam a entender que este tipo de situação (pergunta) é resultante da nossa limitação enquanto ser humano de transcender o nosso escudo intelecto-moral muitas vezes construído em moldes tiranos, xenofóbicos e preconceituosos, ou que, embotado por poucas vivências dentro de contextos de miséria, é dominado pelo horror das atitudes/sujeitos à margem da sociedade.

Tudo bem… Não se pode sacrificar nenhum profissional pela ojeriza ao pretenso “malandro”, “safado”, “maconheiro, “vadia”. No meu modo de entender se o profissional não quer ou mesmo não consegue se conceber atendendo alguém com esta história é uma coisa, um direito até, mas seja honesto com este ponto de vista, não justifique esta limitação com uma generalização desumana do outro que provavelmente não teve as mesmas oportunidades que você e que é renegado ao ” tem que morrer mesmo safado”.

Outro problema é achar que fazemos caridade ao atender alguém… erro crasso!

Somos profissionais comprometidos com o outro e faz parte do nosso trabalho a dedicação, o cuidado e a sensibilidade, porém não o juízo de valor. Já está mais que na hora de vermos o outro como sujeito autônomo, crítico, capaz de fazer escolhas e traçar não apenas o rumo do tratamento lado a lado com você, mas também sobre sua própria vida.

Equidade diz respeito a prover atenção/ação/estratégia em saúde coerente com o quadro de desigualdade do nosso país. Grosso modo é dar mais ao que precisa mais e menos ao precisa menos, mas prover a TODOS. Até que ponto nossas limitações em atender a determinadas parcelas da população não contradizem este lógico preceito envolvido, à época de sua elaboração, em um forte sentimento de luta, autonomia e participação popular?

Por fim a Integralidade… Será que estamos prontos a atuar no campo da saúde sem entender esse sujeito, que tanto nos fere a hombridade, com um ser biopsicossocial e que, portanto prevê em nossa atuação a compreensão dos “por quês”, “como”, “ para que”, e “então(s)” aquela pessoa se encontra naquela situação?

Não se trata de vitimizar o culpado, ou ser licencioso com práticas vis como o abuso sexual e a violência, mas sim tirar o profissional da saúde da posição de julgador e convida-lo a participar da vida do homem além de suas amarras moralistas e por vezes intransigentes.

Para finalizar gostaria de terminar com a página do site Pragmatismo Político chamado de: Almeidinha: “Direitos humanos para humanos direitos”

Almeidinha era o sujeito inventado pelos amigos de faculdade para personalizar tudo o que não queríamos nos transformar ao longo dos anos. A projeção era a de um cidadão médio: resmungão em casa, satisfeito com o emprego na “firma” e à espera da aposentadoria para poder tomar banho, colocar pijama às quatro da tarde, assistir ao Datena e reclamar da janta preparada pela esposa. O Almeidinha é aquele sujeito capaz de rir de qualquer piada de português, negro, gay e loira. Que guarda revistas pornográficas no armário, baba nas pernas da vizinha desquitada (é assim que ele fala) mas implica quando a filha coloca um vestido mais curto. Que não perde a chance de dizer o quanto a esposa (ele chama de “patroa”) engordou desde o casamento.

Continue lendo sobre o Almeidinha aqui

 

Thaís Botelho da Silva
Fisioterapeuta na empresa Grupo Hospitalar Conceição – GHC –
Estudou na Instituição de ensino PUCRS

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4 pensamentos sobre “Da prostituta ao viciado e do agressor ao corrupto… qual o limite da sua atuação profissional?

  1. Thaís disse:

    Também me pergunto até onde vão nossas limitações profissionais/pessoais.
    E elas estão aí a todo momento, basta que nos permitamos enxergar. Basta que larguemos nossas amarras do preconceito, de egocentrísmo, de verdade única e absoluta e estejamos abertos a entender o outro (diferente) como também um igual.

    Valeu colega, bom demais poder compartilhar contigo!

  2. Talita Leite disse:

    Pri, estou agradavelmente feliz ao ler suas colocações! Vc toca em pontos extremamente imperativos, como: a autonomia do paciente, equidade e integralidade, além de expor nossas limitações, como fisioterapeutas. Coloco nossas por já fazer uma meia culpa, mas certamente como eu, tb sei que o seu olhar, como vc mesma diz, tb é a esquerda.
    Resumindo, gostaria de deixar algumas colocações. Não podemos esquecer que a formação tem extremo papel nessa construção do fisioterapeuta, profissional e pessoal. E que, ao meu ver, um dos princípios mais importantes é a integralidade. Dela parte a Alteridade, o respeito, a humanização do cuidado, a visão ampliada do sujeito e a construção compartilhada da relação terapeuta-paciente. Por que não legislar em causa própria? E, como futura bioeticista, esse cuidado integral perpassa pelo campo ético, no que diz respeito aos valores morais humanísticos que queremos e sonhamos ser o cerne do nosso cuidado em saúde.
    Por que, durante a formação nós (ainda generalizando) ainda priorizamos os conhecimentos “bioespecialistas”, ao outros, não menos importantes (eu diria: fundamentais se nossa práxis é cuidar, tocar o outro)? Por que, como alunos, nós nos dedicamos demasiadamente às nossas técnicas e o resto, aquele blá blá blá que não é “matéria” fica para nunca (de preferência)? E por que não, como professores, perpetuamos tal condição já apontada como longe do ideal?
    Certamente, muito avançamos! Mas como suas colocações bem dizem, muito ainda temos que avançar…
    O amor, o respeito e a ética, não deveriam (ou não devem) estar fora do nosso cuidar. E isso independe se estou no lugar que queria estar, fazendo o que queria fazer, recebendo o que queria, nas condições que eu queria, ou não. Prefiro ficar com o “ou não”, pois o meu paciente, a pessoa que confia e por vezes depende do meu cuidado, não é causa de nenhum desses infortúnios, mas, sim, deve sr consequência do nosso melhor, como profissional e como pessoa. Não tem como separar os dois, apesar te ter “aprendido” durante minha granduação que não deveríamos “misturar as coisas”, deveríamos ser profissional. Rs, só rindo! Ok…. Está bom….. Vou deixar meu coração ali em casa, vou atender e já volto…. Rs! Boa piada, não é!?
    Pri, querida, abraço grande a ti! Amei suas colocações!

    • Tata querida que bom ler seu comentário!

      Colocações mais que perfeitas.

      Perceba como a questão da formação na estrutura profissional e psiquica do fisioterapeuta (que você brilhantemente citou) ganham concretude em nossos próprios exemplos, vc na bioética e eu na psicologia. Concorda que esse experiência (humanistica) foi fundamental para descortinar um novo horizonte de compreensão do outro?

      Apesar de termos avançado muito no quesito identificação/ação integral (em todas as acepções possíveis do termo integralidade) ainda temos algumas cicatrizes esquisitas como vc bem citou: colocação do outro como inferior, “paciente”, distanciamento da dor, suposta neutralidade, enfim… ainda é um terreno escorregadio…

      Fiquei muito feliz com as novidades e de saber que gostou/compartilha deste “olhar” !

      Bjo enorme

  3. […] post Da prostituta ao viciado e do agressor ao corrupto… qual o limite da sua atuação profissional? abriu uma série de reflexões sobre a atuação do profissional de saúde em contextos de […]

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