Velas, novenas, terços, desobsessão, despacho… religiosidade e saúde tem alguma ligação?

Religião e Saúde: o que há de positivo e negativo e aplicações práticas

Religiosidade e espiritualidade são coisas diferentes.

Religiosidade pode ser entendida (pois há vários conceitos) como um envolvimento religioso que o sujeito tem com a religião de opção, podendo este envolvimento ser intrínseco ou extrínseco de acordo com a postura deste sujeito frente aos valores por ela empreendidos e o reflexo desse envolvimento nas suas relações sociais, no seu cotidiano, ações e representações. Ou seja, é algo que atravessa as dimensões biológicas, psíquicas e sociais e no campo da saúde se ocupa em entender suas associações com diferentes indicadores.

Atualmente a religiosidade tem sido positivamente associada a saúde por fatores como:

– Como fonte de suporte/apoio, ao facilitar a interação entre os sujeitos e o senso de pertencimento aos grupos permitindo amparo em diferentes situações de vida.

– Incentivo a adoção de comportamentos e estilos de vida tidos como saudáveis como, por exemplo, redução ou mesmo proibição do uso de álcool e/ou outras drogas e controle ou abstinência de padrões sexuais de risco

– Diminuição dos níveis de sinalizadores de resposta autoimune e cascata inflamatória como a interleucina 6 – IL 6- , alfa-2 globulina, d-dímero, leucócitos polimorfonucleares e linfócitos

– Diminui reações agudas de estresse, doenças cardiovasculares, doenças osteomioarticulares, neoplasias e queda de mortalidade em estudos populacionais.

– Potencializa melhores respostas em situações de pós operatório.

– Incremento no chamado controle secundário (capacidade do sujeito em adaptar as necessidades de si às situações externas), mas que os efeitos da relação religião x controle secundário seria mediada pela cultura em que os sujeitos estão envolvidos.

– Favorece a construção de repertórios cognitivos e comportamentais de enfrentamento em situações de vida denominados de coping religioso, como exemplo, redefinição de estressores através da religião como benevolente e potencialmente benéfico, busca de alívio da situação estressante focando-se na religião, esforço para prover conforto e suporte espiritual a outros, procura por conforto e renovação da confiança através do amor, cuidado dos membros e frequentadores da instituição religiosa e ainda busca de ajuda na religião para mudar os sentimentos de raiva, mágoa e medo

Por outro lado esta relação também pode atuar como algo negativo a medida que o sujeito passa a:

– Redefinir as situações estressantes da vida como punição divina aos pecados individuais.

– Acredita que os problemas são resultantes fenômenos do mal ou atos do demônio.

– Esperar passivamente que Deus resolva os problemas, resultando em súplicas por intervenção divina direta.

– Se estar na religião representa dor, sofrimento, ou mesmo confusão e descontentamento com Deus e/ou frequentadores da instituição religiosa.

– Utiliza o conteúdo dogmático/ideológico para justificar/respaldar ações que impliquem em qualquer ato de preconceito, violência, submissão, roubo entre outros.

Na prática do profissional em saúde, seja ele como fisioterapeuta ou não, é extremamente comum depararmos com pacientes que trazem a religião como mote fundamental de suas vidas, por vezes até de forma rígida. Como lidar com este tema tão relevante?

Na minha prática como fisioterapeuta e mesmo na bibliografia chave que estudo em minha dissertação de mestrado tracei alguns pontos que acredito serem facilitadores da relação com o outro pelo viés religioso:

– Identificar não apenas a existência da religiosidade no outro, mas qual o significado dela na sua existência. Cada um tem seu modo de ser religioso, seu modo de envolvimento que pode ser maior ou menor.

– Entender a religião como uma “linguagem” que pode estabelecer uma interessante ponte entre terapeuta e sujeito. Inclusive se estamos atentos aos núcleos de significado (salvação, benção, luta pela vitória, receber a graça, superação, exemplo de Cristo/figuras admiráveis) usando-os à favor da proposta de intervenção com aquele sujeito.

– Ser aberto a crença do outro, respeitando acima de tudo, mas também identificando a grandeza que ela possui na vida do sujeito que você ora acolhe. Isso também vale para os pacientes que não se filiam a religião nenhuma ou mesmo não creem em Deus/outra divindade.

– Não proselitar e nem crer na pretensa superioridade de sua fé.

Estes são apenas alguns apontamentos, gostaria de saber a opinião de outros profissionais e suas experiências.

Para saber mais:

http://leonardoboff.wordpress.com/
http://www.hoje.org.br/site/bves.php

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8 pensamentos sobre “Velas, novenas, terços, desobsessão, despacho… religiosidade e saúde tem alguma ligação?

  1. Gustavo Riani disse:

    Excelente Priscylla. Quando incentivei esse blog sabia q vc escreveria sempre muito bem e com conteúdo variado. Mas a cada dia vc esta se superando. Te amo muito minha menina.

    • Embora um blog não seja considerado conteúdo científico (atualmente consta como produção C&T no CNPq) me ajudou a extravasar algumas reflexões que tem em si desdobramentos teóricos quanto práticos que infelizmente é travado por uma maquinária burocrática e idiossincrática de determinados avaliadores/revistas científicas … não teria isso se não fosse pela sua genial ideia… quanto a qualidade é preciso melhor muito ainda. Serei sempre grata (te amo)

  2. MARCO disse:

    Está mais do que provado que quando temos religiosidade nos religamos com algo acima de nossa inteligência. Somos mais humildes e conscientes de que precisamos de pouco prá sermos felizes. Amar o nosso próximo e valorizá-lo, sem nos escravizarmos a rituais e dogmas. Fé e amor raciocinado, sem fanatismo e radicalismos em nome de Deus. Uma sugestão do que falo é o livro Sobre Ciência e Fé com Frei Betto e Marcelo Gleiser. Uma aula de como áreas seculares podem conviver juntas e se complementando. Basta o cultivo da humildade e da grandeza de espírito em dar espaço ao outro. Abração. Marco.

  3. Willian Gonçalves disse:

    Uma religião ajuda grandemente,quando ela tem por prioridade ajudar a auto-iluminação.Só isso garante uma vida saudável em todos os sentidos.

  4. Já dizia Madre Tereza … uma boa religião é a que faz do homem um homem de bem… e este processo tem uma via individual e outra social, sendo que a consideração de uma dimensão espiritual na constituição do ser é imprescindível para entender as pessoas de maneira integral. Muito obrigada pelo comentário William só engrandece esta discussão.

  5. Principais referencias deste artigo:

    PANZINI R. G, ROCHA N. S. da; BANDEIRA D. R. & FLECK M. P. A. (2007). Qualidade de vida e espiritualidade. Rev. Psiq. Clín. 34, (1); 105-115.

    PANZINI R. G. (2004). Escala de Coping religioso-espiritual (escala CRE): tradução, adaptação e validação da escala RCOPE, abordando relações com saúde e qualidade de vida. Dissertação de mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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