Ado, ado cada um no seu quadrado: interdisciplinaridade o que faço contigo?

Não é à toa que a interdisciplinaridade é um assunto muito caro no meu cotidiano uma vez que, quem vos fala, consegue a proeza de ser uma fisioterapeuta que faz mestrado em psicologia (ênfase em psicologia social), estuda religião sob uma perspectiva psíquica e socioantropológica com uma orientadora que é Assistente Social. Para saber mais sobre mim clique aqui. 

Ou sou o retrato do caos, ou venho trilhando o caminho tortuoso deste modismo multi/inter/transdisciplinar. Alias você se lembra da diferença entre multi/inter e transdisciplinaridade?

Seminário de pesquisa em Educação Matemática

As reflexões deste post são fruto de um convite, inicialmente ameaçador, mas profundamente prazeroso: ministrar uma conferência para o Mestrado Profissional em EDUCAÇÃO MATEMÁTICA. Isso mesmo EDUCAÇÃO MATEMÁTICA.

Tanto o convite quanto a elaboração da conferência me fizeram pensar as consequências de trilhar um caminho ‘inter’ no meio acadêmico e profissional na área da saúde.

Academicamente a interdisciplinaridade é algo que possui certo “glamour” traduzido em orientações/diretrizes curriculares ampliadas no campo da saúde que possibilitem ao graduando uma formação mais completa para lidar/entender o outro, este por sua vez, também formado por várias dimensões.

Neste contexto a inserção, por exemplo, das ciências sociais nos currículos de medicina nas décadas de 50 e 60 tentava atender a este paradigma, porém não alterava a predominância do modelo de “especialidades” findando por ser entendida como um saber meramente complementar ao biomédico (Minayo, 2012)

Na década de 70 a predominância do paradigma biomédico/especializado e fragmentado começa ser abalada por diferentes experiências de saúde comunitária na América Latina (mas também nos EUA) apontando para um modelo de produção social da saúde onde o adoecer era percebido através dos condicionantes econômicos, históricos e sociais. Somente nas décadas de 80,90 e atualmente estas dimensões ganharam força e expressaram-se em diretrizes curriculares efetivamente mais ampliadas envolvendo diferentes campos do saber (Minayo, 2012).

Desta forma nossa formação tende a ser cada vez mais articulada a diferentes áreas, entendendo a complexidade do ser humano objeto da nossa atuação profissional e que sejamos aptos a transitar entre elas. Resultado disso: currículos mais ampliados e inserção dos profissionais em campos de saber diferentes de sua formação original, porém que articula com ela pontos em comum.

De um ponto de vista particular acredito que o grande problema disso é a consequência prática de formações, em nível de pós-graduação, diferentes da nossa formação de base. Infelizmente observo um grande preconceito ou mesmo ignorância sobre esta forma de articular diferentes áreas.

Por exemplo:

Será que um concurso público, seja acadêmico ou profissional, ou um processo de seleção de pós-graduação entende o que a teoria propõe como inter, aceitando/pontuando uma formação ampliada?

Será que o trabalho com diferentes profissionais de forma interdisciplinar é algo viável, ou seja, será que estamos aptos a compartilhar, trocar informações e conhecimentos que pretensiosamente cremos como privativos de determinada formação?

Será que estamos confortáveis em dispor de parte dos conhecimentos e práticas que nos constroem, que nos conceitua como profissional X ou Y e consequentemente como sujeito X ou Y?

Para muitos profissionais estabelecer uma relação dialógica que implica em dividir o que se sabe “ferramentando” o outro e/ou descer de seu pretenso domínio e superioridade de conteúdo sendo “ferramentado” pelo outro é algo inconcebível. Talvez porque ainda sejamos arraigados à noção de que a função/profissão é tudo aquilo que somos, logo, se o outro detém aquilo que sei o que serei então?

Ou ainda… Se o outro detém o que sei, logo ocupa (ocupará) o lugar que estabeleci como meu (e disso tira-se suas causas/consequências políticas, econômicas e das relações de poder de forma geral).

Esse “desconforto” no fundir/compartilhar conhecimentos e estratégias em saúde me lembrou, talvez de forma equivocada me esclareçam por favor, o conceito de “habitus” do Pierre Bourdieu. Para ele o habitus seria, grosso modo, a capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos agentes por meio de disposições para sentir, pensar e agir (Minayo, 2012).

Se eu domino um conhecimento e este conhecimento me faz ocupar determinado lugar (por vezes de status) na sociedade em que estou inserido, porque vou dispor dele? Fica difícil sair do meu quadrado se tudo aquilo que me estrutura como um sujeito ocupante de determinado lugar na sociedade pode fica abalado.

No caso específico que relatei no início deste post ficou a questão: o que temos em comum para estabelecer e aproveitar da articulação entre fisioterapia/saúde e educação matemática? Daí surgiu…

A educação foi a estrada por onde trilhamos o diálogo, mesmo que aplicado a objetos diferentes (educação em saúde/educação matemática) e ainda favoreceu uma discussão sobre a aplicabilidade da pesquisa qualitativa (em nossos moldes acadêmicos) ao se ater a este objeto.

*Obs.: Gostaria de agradecer a todos os alunos do mestrado em Educação Matemática e aos professores Marco Aurélio Kistemann e Regina Kopke pela receptividade e acolhimento fundamentais para o trabalho. Muito obrigada!

 

Referências do texto: O Desafio do Conhecimento – Maria Cecília de Souza Minayo, 2012.

Anúncios

5 pensamentos sobre “Ado, ado cada um no seu quadrado: interdisciplinaridade o que faço contigo?

  1. Gabriel Lopes Garcia disse:

    o texto acerta com precisão o âmago da questão; acrescento que os interesses econômicos e corporativistas exercem grande peso na demarcação de territórios; basta ver as discussões do ato médico e da regulação das profissões como jornalista

  2. Com certeza Gabriel … perfeita colocação! Existem interesses claros que atravessam estas profissões tidas como hegemonicas e que engessam as formações além da atuação prática

  3. Fábio disse:

    Parabéns! Otimo!

  4. Referências do texto: O Desafio do Conhecimento – Maria Cecília de Souza Minayo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s