Um caso amoroso com a fisioterapia… amo ou deixo?

Este olhar é da…

Lilian Atalaia
Fisioterapeuta e Mestranda em Psicobiologia UNIFESP

Você sabia que a escolha de uma profissão é mais ou menos como se apaixonar por alguém?

Primeiro surge um certo interesse, uma curiosidade, depois vem a paixão, aquele sentimento tão gostoso e único, ao mesmo tempo aquela incerteza se é isto mesmo, afinal não existem garantias, mas lá no fundo há uma vontade de continuar, de se aventurar.
Esta fase é a fase da empolgação, onde tudo são flores e você tem muito tempo pela frente.

Escolhi a Fisioterapia porque queria fazer a diferença, gostaria de ajudar os outros. E assim meu relacionamento começou feliz com minha decisão e deslumbrada em conhecer cada vez mais a minha futura profissão.
Como a maioria dos recém-apaixonados, tudo é novidade e parece difícil viver o presente e conter a ansiedade de chegar logo o futuro. No início do curso só tínhamos uma matéria que nos conectava com a Fisio, o restante era do ciclo básico e foi neste momento que a doce inocência, pelo menos a minha, acabou.

Sabe quando você começa a enxergar alguns defeitos na pessoa que você está apaixonada? Comecei a notar que minha profissão tinha seus problemas, muito precisava ser feito, principalmente em adquirir o respeito e conhecimento por parte da sociedade, que nem sempre a remuneração é digna e que a própria universidade pública, que temos tanto orgulho em falar que fazemos parte, possui enormes problemas.

Neste momento alguns terminam a relação, mudam de parceiros, outros continuam porque acreditam que as coisas boas prevalecem sobre as ruins, bem… eu continuei, feliz e ansiosa por conhecer de fato, a fisioterapia.

No final do quarto período surgiu uma possibilidade que mudou minha vida, que foi passar em um projeto de pesquisa, chamado Rede FIBRA, cujo grande objetivo é investigar o perfil de quem é o idoso frágil no Brasil, fato inédito. Neste momento eu percebi que minha paixão estava se transformando em algo mais profundo e aí bate aquele friozinho na barriga, uma mistura de medo, porque você é ainda imatura, e expectativa de que tudo vai ser belo.

Só no sexto período é que finalmente passamos a ter aula com Fisioterapeutas, tivemos que esperar três anos, para começarmos a entender o que é a Fisioterapia, a termos pacientes. É nesta hora que a paixão esfria ou se torna amor, para mim se tornou amor, com tudo que tem direito: alegria de conhecer este maravilhoso universo, medo de fazer alguma coisa errada, afinal vidas de pessoas nos eram confiadas, a necessidade de estudar, estudar, estudar e principalmente vontade de fazer dar certo.

Nesta fase você já começa a se posicionar em relação ao seu companheiro com mais maturidade, nem tudo lhe agrada, é necessário trabalhar nos defeitos, discutir, resolver problemas, mas junto com a maturidade vem também a responsabilidade e a grande descoberta: Ei… eu também não sou perfeita, tenho um monte de defeitos, ou seja qual é a minha contribuição de fato para o curso ser melhor? Para que a profissão seja melhor? E a cobrança de ambas as partes é inevitável…

Surge outra crise: o relacionamento vai adiante ou não? Prossegui. Sabe quando surgem professores que te inspiram ou quando você nota uma atitude maravilhosa da pessoa amada que te enche de vitalidade? Tive esta sorte e assim continuei, cada vez mais amando o curso e sobretudo a pesquisa e a docência. A ideia do casamento era cada vez mais frequente para mim. No nono período fiz um curso de verão de Neurociências na UNIFESP, um evento muito bacana, são selecionados apenas 30 estudantes no Brasil para fazerem o curso e foi neste momento que fiquei noiva com a Fisio, lá deslumbrei todo um futuro que queria construir como cientista, trabalhar num centro de referência internacional.

Mas ainda era um sonho… No último ano do curso foi o mais puxado porém o mais gratificante, trabalhávamos muito, muito mesmo e erámos cobrados como profissionais já formados, foi bonito de ver como todo mundo amadureceu e as preferências de cada um foram surgindo. Nesta fase você já sabe que o amor chegou, eu soube que ele estava presente, mas não sei te falar quando e nem como exatamente ele chegou, talvez a palavra chegar não seja a certa, acho que se transformou gradativamente.

Bate um medo novamente: estou virando gente grande e agora? Caso ou compro uma bicicleta? Eu casei, sabe quando? Durante o último ano estudei pra prestar a prova de mestrado do departamento de Psicobiologia na UNIFESP, pra quem não sabe, Psicobiologia é um dos ramos da Neurociência, sinceramente achava que não tinha a mínima chance, mas consegui passar e foi neste momento que decidi que era isso que queria, foi muito difícil sair de casa, do conforto, amor e proteção dos meus pais (pais da minha família e pais da FACFISIO), como em um casamento você não sabe se vai dar certo, é um “tiro no escuro”, mas existe aquele sentimento belo que te impulsiona a ter ousadia e coragem, é muito difícil sair da zona de conforto e dói, dói como o processo de crescimento nos impõe.

Agora, já casada, estou no processo de ter um filho! Sim, mestrado e doutorado são filhos!rsrs

Dão trabalho, mas a gente ama, não tem jeito! E é através dos meus “filhos” que descobri uma maneira de contribuir para a ciência e futuramente pretendo realizar o meu sonho que é ser professora, em minha cidade (quem sabe?) ensinando aos meus outros “filhos”/alunos a linda profissão que é a Fisioterapia e espero inspirá-los da mesma forma como fui inspirada.

Lílian Atalaia da Silva
Graduada em Fisioterapia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Mestranda em Psicobiologia pela Universidade Federal de São Paulo UNIFESP, bolsista pelo Cnpq.
Pesquisa o envelhecimento humano, suas alterações físicas (principalmente padrões cinemáticos da marcha), alterações cognitivas (em especial as funções executivas) e quedas em idosos.

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6 pensamentos sobre “Um caso amoroso com a fisioterapia… amo ou deixo?

  1. Willian Gonçalves Pereira disse:

    Lindo texto Lilian,inspira até mesmo quem está em outras áreas de atuação.Parabéns…Abraços

  2. Diene disse:

    Essa é mesmo Atalaia (significa vigia)! 😀 Fico muito feliz em ter conhecido a Lílian e esse texto só reforça o que eu já sabia: essa minha amiga é uma mulher de fibra (sem nenhum trocadilho, tá? kk Ela vai entender…), inteligente e esforçada, centrada e madura! Apesar das saudades concordo plenamente com suas palavras e cultivo esse amor tão bem descrito! Arrasou Atalaia! 😀

  3. Giselle disse:

    Que lindo! Me vi nesse processo de amor.. hehe
    Continue com o sucesso e fazendo a diferença na profsissão!
    Parabéns Lilian

  4. E que esse amor se concretize, pois você já é uma profissional. Abraço e obrigada pelo cometário Giselle

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