Paulo Freire … o que ele tem a ver com a saúde?

Como uma proposta pedagógia revolucionária como a dele pode ter repercurssões no campo da saúde? Em que sentido entenderíamos educação em saúde sob a sua proposta?

Essas questões envolveram minha mente junto ao encantamneto pela sua obra libertadora e progressista. Pude advisar como resposta (ao menos no limite dos meus conhecimentos) duas possibilidades para essa educação em saúde: uma relacionada a docência superior em saúde e outra na educação em saúde como ação/estratégia eleita pelos profissionais da área para desenvolver não só saúde mas também cidadania.

Este post trata-se da primeira concepção: a de docência do ensino superior em saúde, especificamente da metodologia problematizadora que tem como referencia as obras de Paulo Freire aplicada ao cenário de estágio curricular.

As metodologias ativas de aprendizagem, dentre elas a problematização, consideram a relevância da dimensão social e politica entendendo que o espaço acadêmico assim como outros cenários de prática são locais para se identificar e problematizar as contradições sociais e a realidade, interconectando o saber e o fazer a partir destas percepções sociais vividas que consequentemente superam a dicotomia do que é intelectual e do que é manual.

A metodologia da Problematização se insere em uma concepção histórico-crítica da educação, inspirada no materialismo histórico dialético e encontra fundamentos principalmente na Filosofia da Práxis e na Pedagogia Libertadora/Problematizadora de Paulo Freire cujo foco é trabalhar os problemas/tensões, refletindo sobre elas e, a partir disto, criando possíveis soluções, ou seja, problematizar significa responder ao conflito exposto através de processos de ensino-aprendizagem que valorizam o aprender a aprender.

O supervisor/docente assume neste contexto o papel de facilitador, aquele que possibilita ao educando situações com potencial de modificações na vida concreta pois parte da premissa de que este aluno é antes de tudo um ser no mundo que não a ele se adapta, mas que nele se insere, que não se reduz a objeto da informação transmitida mecanicamente mas é sujeito do próprio conhecimento.

A problematização envolve o pensamento crítico, concebido como ação transformadora e articulada às situações concretas, integradas aos conteúdos previamente conhecidos. Com isso a sala de aula, ou qualquer outro cenário de aprendizado reflete as situações vividas pelos educandos o que favorece um retorno crítico ao objeto de reflexão.

A experiência de estágio exercida sob este enfoque crítico-reflexivo da problematização facilita o desenvolvimento de outras habilidades além do domínio teórico como uma prática profissional emancipadora e humanizada, uma vez que tem como pressuposto Freireano a liberdade como condição necessária à prática educativa; a humanização das relações entre docentes e discentes; a conscientização/tomada de consciência (prise de conscience) como processo para leitura do mundo, o dialogicidade docente-discente e entre o saber formal e o mundo; a perspectiva de cultura que abre caminho para uma reflexão sobre a realidade e a crítica das condições sociais.

Nesta metodologia de ensino os conteúdos são construídos pelo estudante a partir de suas concepções sobre diferentes temas relacionados à saúde e do cruzamento entre aquilo que foi observado como material humano, ambiental, social e cultural e a sua estrutura cognitiva prévia. O fruto desta articulação permite descobrir relações, leis ou conceitos que o próprio aluno precisará assimilar e que, portanto serão os conteúdos trabalhados pelo supervisor/docente.

A orientação do trabalho assume um eixo processual básico de ação-reflexão-ação transformadora que envolveria cinco etapas: observação da realidade; identificação dos pontos-chave; teorização; hipóteses de solução e aplicação à realidade. Desta forma as experiências acadêmicas e científicas estão conectadas a uma estratégia didática focalizada no aluno, como sujeito social dentro e fora de sala capaz inclusive de analisar e propor questões sobre seu próprio processo de aprendizado.

Em contrapartida existem alguns problemas e limitações. Uma delas diz respeito ao fato de que a supervisão de estágio ser orientada por fisioterapeutas que circunstancialmente assumem a função de professores e não de professores-fisioterapeutas, ou seja, traz a ideia de que o conhecimento pedagógico é aprendido na prática, sem a existência de formação específica anterior para exercer a docência desenvolvendo formas de atuação profissional empíricas pelo viés de suas experiências particulares que passam a constituir seu corpus pedagógico ou o seu modo de ser docente.

Em relação à Problematização ressalta-se que apesar desta metodologia ter a realidade social como ponto de partida e de chegada, perspectiva indispensável à atuação em APS e de permitirem a reflexão sobre a própria vivência possa, entretanto gerar um sentimento de ‘incerteza’ no aluno caso as atividades e avaliações sejam pouco estruturadas, característica tendenciosa da Problematização, diferentemente, por exemplo, da estratégia de Aprendizado Baseado em Problemas -ABP- que também se encontra no rol de metodologias ativas de aprendizagem.

Outro fator que predispõe o aluno ao sentimento de incerteza/insegurança decorre de uma transição por vezes abrupta do método tradicional de ensino para as metodologias ativas onde o discente se sente perdido na busca de conhecimento, principalmente em disciplinas básicas, requerendo maior atenção dos atores envolvidos no processo de aprendizagem, além de mudanças de características psíquicas e cognitivas muito particulares que envolvem comportamento, maturidade e organização.

Ou seja, esta não familiaridade com o método pode, pelo menos inicialmente, gerar um sentimento de que não sabem, de que não estão aproveitando a experiência, sendo que esta ideia também pode estar atrelada à carência de suporte apropriado do corpo acadêmico e institucional para a implementação de estratégias de ensino até o momento não convencionais.

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3 pensamentos sobre “Paulo Freire … o que ele tem a ver com a saúde?

  1. Gabriel Lopes Garcia disse:

    grande análise! sintética e profunda
    estas reflexões precisam ganhar mais espaço nos ambientes acadêmicos e, acima de tudo, ganhar voz na formação dos profissionais, retirando o viés tecnicista

    • priknopp disse:

      A obra dele é realmente libertadora como propõe… Para quem estabele suas ações docentes em comunidades de vulnerabilidade programática, social e tantas outras é ainda mais contextual pois representa uma ferramenta de desenvolvimento social, autonomia, questões que são atravessadas pela saúde mas não apenas por ela.

      Obrigada pelo cometário

      • priknopp disse:

        Vale a pena conferir as referencias usadas na elaboração deste post:

        Gonçalves RN; Melo JS. Expectativas dos universitários do curso de fisioterapia frente ao primeiro estágio prático e a reflexão da participação docente na preparação para o estágio prático.

        Moretti-Pires RO, Alencar AKB de, Campos ERH, Oliveira HM de. POTENCIALIDADES DA PROBLEMATIZAÇÃO FREIREANA NO ENSINO DE “DIDÁTICA EM ENFERMAGEM”

        Marin MJS, Lima EFG, Paviotti AB, Matsuyama DT, Silva LKD da, Gonzalez C.; Druzian S. Ilias M. Aspectos das fortalezas e fragilidades no uso das Metodologias Ativas de Aprendizagem.

        Brasil W. DIDÁTICA CRÍTICA E EXPERIÊNCIA DIALÓGICA SOB A INFLUÊNCIA FREIREANA: PRÁTICAS NO ENSINO SUPERIOR. V Colóquio Internacional Paulo Freire –

        Freire P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários á pratica educativa. Paz e Terra, 2011.

        Marques RN, Giordani EM, Freitas DS. Formação pedagógica do docente de estágio curricular supervisionado no curso de fisioterapia como fator de responsabilidade social.

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