Panelinha da terceira idade? Considerações sobre o idoso e as formações grupais

Em países em desenvolvimento como o Brasil o “limiar do início da velhice” é demarcado pelos 60 anos de idade, mas também associado a uma série de modificações biológicas, psíquicas e sociais em nível microssocial (núcleo familiar e social próximo) assim como macrossocial, nas dimensões sociopolíticas e econômicas do país interferindo inclusive nas discussões do que vem a ser saúde para esta população.

As palavras de Minayo & Coimbra Jr. neste contexto nunca foram tão felizes como agora…
“a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice não constituem propriedades substanciais que os indivíduos adquirem com o avanço da idade cronológica. Pelo contrário: o processo biológico, que é real e pode ser reconhecido por sinais externos do corpo, é apropriado e elaborado simbolicamente por meio de rituais que definem, nas fronteiras etárias, um sentido político e organizador do sistema social.”

No panorama do envelhecimento atual é cada vez mais importante estudos associados entre epidemiologia, neurociências, psicologia e sociologia/antropologia estimulando novas formulações sobre os conceitos e paradigmas de saúde, assim como sobre a imagem que os grupos sociais e os próprios idosos têm de si e sobre o envelhecimento, se questionando a respeito do espaço que ocupam na sociedade, nas relações intergeracionais, na economia formal e informal e no perfil previdenciário.

É cada vez mais comum conceitos de saúde e envelhecimento que ratificam a importância de se inserir a dimensão psicossocial nestas discussões, compreendendo esta dimensão como os diferentes valores, crenças e imagens a respeito deste idoso em relação com os o perfis de saúde e condições de vida que são notadamente importantes assim como outras concepções teóricas que muitas vezes são mais predominantes.

“No que concerne à saúde, em torno da geriatria se estabeleceu um grande mercado consumidor, refinando os instrumentos e as medidas que rotulam o cotidiano da existência dos idosos. A seu lado desenvolveram-se normas preventivas fundadas no uso nem sempre crítico da “teoria do risco”, tão problemática quando tenta, por meio de médias, justificar propostas preventivistas. Dessa forma, desconhece-se a complexidade dos sujeitos, criando-se uma estética da vida referenciada em proibições e regras gerais. A pergunta necessária é a seguinte: será que não existe possibilidade de introduzir, na receita do que é saudável, o ingrediente “prazer de viver” como mote central dessa última e decisiva etapa da existência?”

Minayo & Coimbra Jr.

Pensando no idoso dentro desta dimensão e, portanto com um ser social, observa-se que com o aumento da longevidade do brasileiro a relação entre o idoso e os outros membros familiares é crescente e normalmente estabelecida pelo posicionamento do idoso como mantenedor/auxiliador nas despesas do lar através da aposentadoria e/ou ainda assumindo o papel de cuidador de outros membros do núcleo familiar, normalmente crianças.

Em uma perspectiva mais abrangente, ou seja, extrapolando os núcleos familiares, observa-se uma tendência deste idoso em buscar inserir-se em diferentes atividades de grupos que poderiam prover suporte/amparo social e desta forma contribuir para a promoção de saúde e qualidade de vida desta população.

Os grupos de terceira idade ou outras associações comunitárias podem ser recursos interessantes para enfrentar a questão do isolamento e depressão nos idosos, questões estas que se intensificam mediante situações difíceis de vida mais frequentes nesta faixa etária como a viuvez (especialmente feminina, visto a maior longevidade deste sexo), perda de amigos ou parentes próximos, algumas condições limitantes/perda de autonomia e também em situações de aposentadoria.

A atenuação do quadro depressivo no idoso relacionado a questão da aposentadoria se estabeleceria ao permitir uma opção de atividade produtiva que, de certa forma, substituiria o espaço da atividade laboral exercida por vezes durante toda a vida do sujeito.

O grupo de idosos corresponde à reunião de um número variável de sujeitos que se encontram durante um tempo e frequência pré-determinados e que comungam de objetivos específicos e das redes de contatos pessoais. Durante a execução desses grupos ocorre o desenvolvimento de códigos, de referências e de tradições que estabelece para seus integrantes um sentido de totalidade ou unidade que os diferencia de outros grupos.

A busca destes núcleos pode estar condicionada a auto percepção do ‘status’ de saúde subjetiva, ou mesmo, objetiva no sentido de viabilizar a integração deste idoso nas atividades propostas, compreendendo que determinadas condições psíquicas e físicas podem restringir sua inserção nestas atividades.

Quando o idoso se integra ao grupo torna-se teoricamente possível trabalhar e minimizar os efeitos das imagens e vivências negativas do envelhecimento através do contato social, do exercício do papel de cidadão, do aproveitamento das potencialidades do idoso com estímulo ao desenvolvimento de novas capacidades.

O exercício destas funções foi relacionado com o aumento da autoestima, da motivação, do sentimento de realização pessoal e também com a melhora das condições físicas de saúde como exemplo das funções cardiovasculares, endócrinas e de imunidade, estando este último fator também associado a adoção de comportamentos tidos como saudáveis.

Entretanto, mesmo que os aspectos positivos ressaltem aos nossos olhos, como ainda ‘engatinhamos’ no exercício de viver com o idoso vale lembrar as ressalvas de Minayo e Coimbra novamente, pois muitas de nossas posturas perante o idoso precisam ser melhor refletidas:

“entender também os véus que cobrem a destinação antecipada ao lugar social estereotipado que o aparente cuidado social lhes reservou: o ‘recolhimento interior’ (eufemismo para o afastamento do trabalho); a inatividade (rotulação dos aposentados e aposentadas); a prevenção das possíveis doenças (medicalização da idade) ou as ‘festinhas da terceira idade’ (infantilização desta etapa da vida).”

**Este post contém algumas considerações de minha dissertação de mestrado, ficarei feliz em, à parte, citar e esclarecer as referencias teóricas/bibliográficas utilizadas em sua elboração.

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Um pensamento sobre “Panelinha da terceira idade? Considerações sobre o idoso e as formações grupais

  1. Referências deste post:

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