Os jovens são o futuro do país… ops será? Jovens, futuro?

No Brasil, assim como em vários outros países do mundo, observamos um aumento crescente da população idosa, fator que altera significativamente o perfil populacional do país, no fenômeno denominado de “transição demográfica”. A chamada “transição demográfica” é, grosso modo – uma vez que este fenômeno é extremamente complexo – resultante da associação de fatores como a redução da fecundidade e da mortalidade infantil, intimamente associada ao avanço da tecnologia em saúde assim como de ações cada vez mais eficazes no âmbito da saúde materno-infantil e do planejamento familiar (Melo & colaboradores, 2009).

A mortalidade nos idosos é outro fator que contribui para esta modificação do perfil, pois vem diminuindo ao longo dos anos em consequência da melhoria da qualidade de vida, maior acesso aos serviços de saúde e avanço das tecnologias no tratamento de agravos próprios da terceira idade (Melo & colaboradores, 2009).

Desta forma, observamos um país cada vez mais velho, o que modifica significativamente a posição do idoso na sociedade, desde mudanças em nível de saúde pública e previdência, com aumento do número de aposentadorias e investimentos em tratamentos específicos para acometimentos da terceira idade, até implantação de políticas públicas específicas como a Política Nacional do Idoso (PNI) em 2002 e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) em 2006 (Baptista, Neves & Baptista 2008).

Associado a estes fatores observam-se mudanças na estrutura familiar onde o idoso passa a ser, com frequência, mantenedor do lar através da aposentadoria, além de assumir papel vital na criação e educação dos netos, o que gera modificações no relacionamento inter-gerações oriundos da convivência cada vez maior e intensa pela longevidade desta população (Costa & Ciosak, 2009; Melo & colaboradores, 2009; Camacho & Coelho, 2010; Horta, Ferreira, & Zhao, 2010).

Tendo em vista a importância desta temática na estrutura/conjuntura da sociedade atual é notória a importância e necessidade de se discutir qual significado de envelhecimento o idoso constrói ou reconstrói ao longo de suas vivências, principalmente para compreender como estes significados influem na saúde desta população.

Ao relacionar saúde com envelhecimento é importante lembrar que isso implica em uma inter-relação harmoniosa dos aspectos físicos sociais e mentais, muitas vezes um status subjetivo, permeado por dimensões cada vez mais amplas e complexas. Em se tratando de saúde do idoso, este tema se torna ainda mais trabalhoso, consequência dos vários aspectos que permeiam a percepção e o sentido de saúde para esta população.

A percepção de saúde para o idoso normalmente entrelaça duas grandes representações contraditórias – uma positiva e outra negativa – como mostra o trabalho de Guerra & Caldas (2010). O discurso positivo faz referência ao orgulho da longevidade que gera consigo acúmulo de experiências e respeitabilidade. Associada a esta longevidade está à conquista de melhor qualidade de vida mediante autonomia financeira e, com a desobrigação do trabalho mantenedor, dispensa de grandes atribuições sociais e familiares que geram tempo livre para novas possibilidades de aprendizado, de realizações pessoais e novos relacionamentos.

Por outro lado, observamos um discurso negativo que retrata as alterações fisiológicas e patológicas caracterizadas pelas doenças crônicas degenerativas e processos demenciais e depressivos próprios desta faixa etária. Conjuntamente as alterações biológicas somam-se as alterações profundas da imagem corporal oriundas do aparecimento de novos caracteres socialmente depreciativos como rugas, cabelos brancos, ganho de peso e flacidez. Por fim ainda relatam situações limitantes como diminuição da capacidade motora e realização laboral.

As limitações motora e, principalmente, laborais geram grande transtorno para o idoso já que estamos inseridos em uma sociedade capitalista e a capacidade de produção através do trabalho dá significado à existência do indivíduo, sendo que associado ao imaginário de invalidez torna o sujeito idoso físico e psicossocialmente vulnerável.

Esta vulnerabilidade do idoso acontece quando ele se percebe alheio às atividades que geram renda para a manutenção do lar e ainda pela substituição do seu “lócus” na família, ou seja, deixando de ser considerado sujeito ativo e representativo daquele núcleo. Perdendo sua representatividade na sociedade e na família, o idoso se torna cada vez mais inseguro de si e esta situação pode se potencializar quando as reflexões sobre a transitoriedade da vida e convivência com a morte surgem no seu contexto.

Esse texto, apesar de superficial, já demonstra como a questão do envelhecimento é importante da agenda de discussões dos profissionais de saúde.

Para complementar o texto posto o video de Minayo sobre o panorama da saúde no Brasil neste perfil longevo.

Caso queiram as referências é só pedir.

Saúde e suas complexidades: economia e desenvolvimento.

Já deve estar claro nessa altura do campeonato as concepções ideológicas cernes deste blog.
Não poderia deixar de compartilhar neste espaço o pronunciamento de Luis Eugenio Portela Fernandes de Souza, presidente da ABRASCO e Ligia Bahia (UFRJ), cujas palavras refletem pra mim a concretização dos ideais que, nós profissionais de saúde, mais ou menos engajados nas concepções de Reforma Sanitária, ou melhor, na compreensão dos diferentes determinantes da saúde individual e no âmbito coletivo (macrossocial) precisam se afinar ou ao menos entender.
Fontes:
Carta Capital
Blog do Cebes
Tudo foarma
Ensp informa
“No Brasil o setor da saúde apresenta gastos da ordem de 9% do PIB e emprega de 10% do total de trabalhadores assalariados. Do ponto de vista da ação governamental, vale destacar as oportunas e relevantes iniciativas voltadas para impulsionar a inovação tecnológica e o complexo econômico-industrial da saúde. Tais ações são fundamentais para assegurar o suprimento dos insumos necessários à expansão da oferta de serviços que respondam aos problemas de saúde dos brasileiros, com custos suportáveis para a sociedade. Espera-se que os resultados desses esforços não tardem a aparecer e a se consolidar.

Infelizmente, no que toca à dimensão dos efeitos das condições de saúde sobre o crescimento econômico, a política macroeconômica nacional parece desconhecer a importância do investimento na saúde pública. As esperanças de ampliação dos recursos para a saúde, depositadas na aprovação do Projeto de Lei Complementar 01/2003, foram frustradas, no momento em que a Lei nº 141, sancionada em 2012, não contemplou a obrigação de se destinar, no mínimo, 10% do orçamento da União para os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS). Embora os gastos totais em saúde como proporção do PIB cheguem a 9%, no Brasil, o gasto público não chega aos 4% do PIB, o que significa que 75% da população, que só usa o SUS, dispõem de apenas 385.00 de dólares per capita/ano para a atenção a todas as suas necessidades de saúde. É menos do que dispõem argentinos, cubanos, chilenos, colombianos e mexicanos, para ficar apenas na América Latina.

Finalmente, no que tange à distinção entre crescimento econômico e desenvolvimento, é preciso reconhecer que a estabilidade da democracia política, certo grau de desconcentração da renda e a ampliação do consumo de massas são conquistas sociais e econômicas com reflexos positivos na esfera social. Contudo, as políticas centradas no crescimento e na competividade não estão reduzindo a concentração da propriedade e da riqueza, nem detém o avanço da mercantilização e privatização das políticas sociais. Com isso, ainda que ajudem a elevar o PIB e a reduzir a miséria, não são capazes de melhorar significativamente as condições de vida e de saúde.

Ser um país desenvolvido é hoje uma aspiração da sociedade brasileira. Buscando contribuir para concretizá-la, os sanitaristas e sua entidade científica desejam se manter articulados ao Movimento da Reforma Sanitária para mobilizar a todos em prol da saúde e do desenvolvimento, apresentando as evidências, produzidas por uma ciência comprometida com a cidadania, de que um sistema de saúde universal é pré-requisito da condição de nação desenvolvida.


Textos completos em:  Carta Capital

Cebes

 

Por outro lado outra grande personalidade nos estudos sobre o financiamento da saúde no Brasil, Lígia Bahia, gerou uma série de discussões as se pronunciar sobre a questão da mercantilização da saúde e como ela se articula com a liberdade individual de escolha. segundo ela:

“As recentes ponderações sobre a indevida intervenção governamental no controle de medicamentos e uso do álcool por motoristas, embora muitas vezes motivadas apenas pela defesa das empresas produtoras, retomam o apelo à inviolabilidade do direito à liberdade individual. Contudo, a resolução do entrechoque entre direitos de vender e comprar produtos, bens e serviços que causem danos à saúde, baseia-se em contraevidências, tais como as da redução de acidentes e reações adversas. As decisões sobre a proteção da população de riscos não variam com os graus de transigência sobre a liberdade.

Consequentemente, a insistência de alguns libertários de ocasião de designar à saúde pública o papel de antagonista dos direitos individuais só embola a discussão. Aderir à liberação do uso de agrotóxicos pela manhã e internação compulsória de usuários do crack à tarde é incompatível com a defesa incondicional da liberdade.

O convencimento sobre a adequação da saúde à ótica puramente mercantil e a respeito do isolamento involuntário de grupos sociais para preservar a ordem não deriva necessariamente de conjecturas filosóficas nem presunções políticas completamente explícitas. A lógica de definição dos atributos públicos ou comerciais da saúde não está totalmente atrelada aos desígnios do livre arbítrio. O Obamacare só se viabilizou após a depuração dos interesses das empresas que comercializam planos de saúde e dos argumentos sobre a caduquice dos sistemas públicos.

Admitir a melhor qualidade e menores preços de sistemas públicos de saúde não significa concordar com a suspensão autoritária dos direitos humanos. Nenhuma dissertação científica terá soluções para os questionamentos sobre que tipo de sociedade queremos. Não é preciso comprovar a solidez das bases de solidariedade e o altruísmo para informar decisões sobre a natureza não mercantil de determinadas ações de saúde.”

Texto completo aqui: Cebes 2   e  Tudo farma

Bullying, Rafinha Bastos e o politicamente correto!

O tema violência e suas implicações sobre a saúde já foi discutido aqui no blog em VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (FAMILIAR) E SAÚDE entretanto ela não se apresenta somente no contexto familiar.

É cada vez mais comum ouvirmos o termo Bullying, inclusive muita confusão a respeito do que seria este conceito. Adentrando no campo do conhecimento sobre violência que tal entendermos melhor sobre Bullying ?

Este olhar é do…

Fellipe Soares Salgado
Psicólogo- Mestrando em Psicologia/UFJF

Ano passado o comediante brasileiro Rafinha Bastos foi demitido de um programa na tv por ter feito uma piada contra Vanessa Camargo! -“Não, amigo! Aquilo não foi bullying!” Essa foi minha resposta para um conhecido em conversa rápida na rua!

Vale lembrar que o comediante foi considerado o mais influente no Twitter pelo jornal americano The New York Times. Não foram considerados somente números de seguidores, mais também quantas vezes ele era mencionado ou retuitado pelos internautas que utilizam esse microblog americano, demonstrando a atitude positiva dos internautas em relação ao seu conteúdo publicado na rede. Rafinha competia com personalidades como Barack Obama, Lady Gaga e Oprah Winfrey; todos americanos e com muito mais seguidores.

O que acontece hoje parece ser aquilo que estão chamando do culto ao politicamente correto, sem nenhuma menção mais erudita ao termo, refiro-me àquela atitude de julgar comportamentos quaisquer como “feio” ou “errado” mesmo eles sendo fatos reais, engraçados ou não!

Aí vocês me perguntam, o que isso tem à ver com bullying?! Pois é, é que me parece que cada vez mais as pessoas têm o vício de definir qualquer coisa “negativa” que elas presenciem como bullying! Muito disso alimentado, talvez, pela crença nas qualidades positivas e corretivas do politicamente correto! Qualidades estas que realmente não consigo corroborar como pesquisador e que tenho que defender e esclarecer aqui através de meu ponto de vista.

Segundo o norueguês Dan Olweus, pai do conceito no âmbito cientifico, bullying pode ser considerado uma agressão que ocorre na relação entre colegas no contexto escolar, podendo resultar em danos físicos e psicológicos. A agressão é necessariamente intencional e ocorre durante um espaço de tempo prolongado, observa-se um desequilíbrio de poder entre vítima e agressor ou entre vítima e grupo de agressores. A vítima fica exposta repetidamente a ações negativas que lhe causam danos a saúde!

Percebe-se aqui que não estamos falando de qualquer agressão, não estamos falando de brincadeiras entre colegas, não estamos falando de indisciplina na sala de aula e nem de piadas com cantoras grávidas!

Bullying é uma agressão que depende de uma relação continua entre colegas na escola para acontecer. Uma relação aonde a vítima se mostra fraca de algum modo; pode estar passando por problemas em casa, ser muito tímida ou não ter jogo de cintura com amizades. Esses alunos apresentam características que intensificam ou que fazem iniciar vários sintomas psicológicos negativos à sua saúde e a sua vida, como: depressão, transtornos de ansiedade ou do estresse, queda no rendimento escolar e desistência da escola.

O agressor também sofre impacto dessa relação já que também pode estar sofrendo algo de ruim em casa, não saber lidar com alguma dor e só conseguir de destacar em sala usando da força com outros colegas. Ambos sofrem com a influência negativa em suas vidas futuras, pois não desenvolvem habilidades importantes para a vida: auto-confiança, comportamentos assertivos, controle das emoções, por exemplo. Existe, de fato, nessas situações resultados negativos para a saúde dos envolvidos e déficits em suas capacidades de lidar com o outro de forma positiva.

Essa situação pode ser trabalhada com pais e educadores depois de uma aquisição adequada de conhecimentos sobre o fenômeno e formas de combatê-lo coletivamente: escola, alunos e familiares. Não é fácil, mas é possível fazer algo com ajuda dos psicólogos!

Agora pergunto ao conhecido lá da rua: -Você esta depressivo ou ansioso, ou mesmo não quis mais ir a escola ou trabalhar porque o Rafinha fez aquela piada com a Wanessa? Entao, isso  não é bullying!

O fato dele ser o mais influente no twitter e ser seguido por 5.041.341 pessoas me faz pensar: será que na internet as pessoas estão ligando menos pro politicamente correto e curtindo as piadas como simplesmente o que são: piadas? Vendo Rafinha pessoalmente na sua casa de show lotada achei-o mais sensível aos outros do que muitos.

Tenho a impressão de que ele sabe do bullying ou que isso faria mal ao filho dele na escola, bem como entende que o que faz é piada, não bullying! E o mais interessante, ele continua fazendo a piada que o demitiu da tv, só que ganhando mais por isso e de forma autônoma. Eita, parece que o tiro politicamente correto saiu pela culatra. Será que nos pesquisadores conseguimos driblar essa tendência “correta” das coisas e defender nossos conceitos pesquisados de forma mais adequada e melhor instrumentalizar a população com eles?

Ética na atuação profissional em saúde: entendendo melhor a questão prisional no país

O post Da prostituta ao viciado e do agressor ao corrupto… qual o limite da sua atuação profissional? abriu uma série de reflexões sobre a atuação do profissional de saúde em contextos de vulnerabilidade e/ou em instituições penitenciárias. Pensando nisso… que tal entendermos melhor essa questão sob a ótica de uma estudante de direito?

Mariana Mendes
Graduanda em Direito/UFJF
Atualmente trabalha no Critt/UFJF

Este olhar é da…

Sistema Penitenciário, Sociedade e Ressocialização

Dentre os inúmeros problemas que o Brasil atravessa, temos a questão do sistema penitenciário e da ressocialização dos egressos desse sistema.

Quando se estuda, em teoria, os sistemas punitivos do nosso Direito Penal, este parece ser organizado e bom o suficiente para diminuir a criminalidade e tornar a vida de presidiários ao menos digna de ser chamada de vida. Entretanto, nada está mais distante da realidade. O que se vê são cadeias lotadas, péssima qualidade de existência e praticamente nada de ressocialização. São verdadeiras escolas de criminosos.

Tanto isso é verdade que de 1995 para 2009, a população carcerária aumentou 318%, não acompanhando o aumento da população: de 95 presos para cada 100.000 habitantes em 1995 passou para 246 presos para cada 100.000 habitantes em 2009. Os números são alarmantes. E demonstram claramente que algo está muito errado nisso tudo.

Além disso, quem de fato é preso no Brasil? Fala-se muito em impunidade, mas a verdade é que para os setores mais pobres, esta não existe nem de longe. Só há impunidade para quem tem dinheiro para pagar por ela. O que superlota as prisões, em geral, são crimes contra o patrimônio, notadamente furtos e roubos. Trata-se de uma grande massa de jovens negros e pobres, moradores de favelas e periferias. Estes é que são presos no Brasil.

É por isso que se diz que prisão é escola para criminosos. O sujeito rouba uma galinha porque sua família está passando fome e fica anos preso por isso. É claro que, em contato com diversos outros “criminosos”, ele aprenderá diversas “técnicas” e “aprimorará” seus crimes.

Isso se torna ainda mais grave quando pensamos em ressocialização. O sujeito cumpriu sua pena. Muito bom. Sai da prisão. Vai procurar um emprego e não consegue por ser egresso do sistema penitenciário. A função punitiva pertence ao Estado e não à população por alguns motivos. Entre eles está a necessidade de se evitar a vingança privada, por exemplo.

Mas é ilusão acreditar que a função punitiva está restrita ao Estado. Isso fica claro no exemplo citado acima. O sujeito não consegue emprego. Cumpriu sua pena, mas continua sendo punido. E, muitas vezes, por um crime que nem oferecia perigo social. Aí o sujeito vai voltar para o “mundo do crime”. É quase um ciclo.

Já dizia Cesare Beccaria, em 1764 (!), que “só as leis podem fixar as penas de cada delito e que o direito de fazer leis penais não pode residir senão na pessoa do legislador”. Isso significa que a população não tem o direito e de agravar a pena do sujeito. Como queremos diminuir a criminalidade se não damos sequer uma chance do sujeito se reerguer e recomeçar sua vida de forma digna?

Como já disse Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro, a prisão é uma pena de morte social. O criminoso fica condenado a receber essa alcunha pelo resto de sua vida.

Prova cabal de que o sistema penitenciário está longe de ser o ideal é ter que ouvir do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em pessoa, que preferia morrer a ser preso no Brasil. Precisa de mais? O problema maior não é o referido Ministro fazer esse tipo de afirmação, mas fazê-lo e ainda assim não buscar real solução para o problema. Aumentar vagas ou aumentar o número de presídios nitidamente é solução paliativa. É fácil cruzar os braços quando não se corre grandes riscos de ser preso. Afinal, quem vai pra cadeia no Brasil é negro e pobre. Prova disso é toda a comoção diante do julgamento do mensalão. Se fosse corriqueiro ricos serem presos, o país não estaria tão impressionado com a coisa toda.

Por fim, vale citar novamente Beccaria:

Entre os romanos, quantos cidadãos não vemos, acusados anteriormente de crimes hediondos, mas em seguida reconhecidos inocentes, receberem da veneração do povo os primeiros cargos do Estado? Porque é tão diferente, em nossos dias, a sorte de um inocente preso?

É porque o sistema atual da jurisprudência criminal apresenta aos nossos espíritos a ideia da força e do poder, em lugar da justiça; é porque se lançam, indistintamente, na mesma masmorra, o inocente suspeito e o criminoso convicto; é porque a prisão, entre nós, é antes um suplício que um meio de deter um acusado.

Vale ressaltar que essas afirmações foram feitas no séc. XVIII e ainda hoje podem ser consideradas atuais. É necessário que mudanças sejam promovidas. E é impossível pensar mudanças apenas de cima para baixo. A mudança deve ser de cada um. Mudança de consciência e de cultura. Todos precisamos abrir os olhos aos problemas citados. Eu sou mulher, branca, de classe média, estudante. Definitivamente não me encaixo no “perfil” dos presos. Provavelmente você que está lendo isso também não. Mas estamos falando de seres humanos como nós que merecem ser tratados como tais.

Isso sem falar na responsabilidade que a sociedade como um todo tem por esses sujeitos. Mas esse seria um assunto para outro texto. Então melhor terminar por aqui.

Quer saber mais sobre a Mariana? Clique aqui e descubra o “Miscelânea”.

 

Inspirações:

Livro: Dos Delitos e Das Penas, de Cesare Beccaria.

Vídeo “A Prisão é para quem?”, com discurso do deputado estadual do RJ, Marcelo Freixo, no plenário da Alerj em 14 de Novembro de 2012.

 

 

 

Como anda o teu conhecimento? “Mafalda” responde…

Cinco sugestões de Mafalda

Acredito que, ao menos uma vez na vida, vocês já se depararam com uma tirinha da MAFALDA.

Mafalda foi uma tira escrita e desenhada pelo cartunista argentino Quino (Joaquín Salvador Lavado, 1932) cuja protagonista – Mafalda- é uma menininha que, apesar de ter comportamentos típicos da infância, também possui uma visão ampliada da vida que a leva questionar o mundo à sua volta, em uma perspectiva crítica, mais humanista e aguçada do mundo. Fato este que deixa seus pais de cabelo em pé com algumas de suas colocações perfeitamente situadas no contexto sócio histórico mundial (notadamente da América Latina) da década de 60.

Mas o que a Mafalda tem ou teria a nos ensinar sobre conhecimento?
Maria Cecília Minayo uma socióloga, antropóloga e doutora em Saúde Pública me inspirou para a escrita deste post juntamente com a obra do Quino.  Para ela a ciência é a forma hegemônica de construção do conhecimento nos dias atuais, entretanto desde que o homem é homem criou diferentes formas para explicar os fenômenos que cercam a vida, a morte, o lugar dos indivíduos na organização social, os mecanismos de poder, de controle, de reprodução.

“Desde tempos imemoriais, as religiões, a filosofia, os mitos, a poesia e a arte tem sido instrumentos poderosos de conhecimento, desvendando lógicas profundas do inconsciente coletivo, da vida cotidiana e do destino humano.”  (Minayo em O Desafio do Conhecimento)

Por que, então,  não podemos dialogar com as tiras da Mafalda sobre este próprio ato de conhecer?

Cinco sugestões de Mafalda

1. O que saber?

Um dos primeiros impactos ao se entrar na faculdade é o volume de conteúdos que se desdobram mediante a nossa  capacidade ou boa vontade de acompanha-los. A tirinha ao lado lembra esta primeira impressão, aquela de que “não vai caber”, de que é “muita coisa”.

Sinto dizer que, para aqueles que tem prazer em aprender e entende o aprendizado como algo natural da vida, essa sensação não passa… há sempre algo novo, uma teoria, uma técnica, uma corrente filosófica … fora aquelas que a gente passa batido e só depois, com a MATURIDADE presenteada pelo tempo,  entendemos o  significado.

Aos poucos a ansiedade originada no “ter de deter tudo o que se apresenta” vai sendo trabalhada e direcionada por um senso crítico que nos aponta para algumas questões, a meu ver, fundamentais: não se pode saber TUDO e que se os conteúdos apresentados são realmente importantes ou se atendem a “modismos” (comum na prática do fisioterapeuta, inclusive).

Obs: Já discuti no blog sobre metodologias que facilitam o aprendizado crítico – Paulo Freire… o que ele tem a ver com a saúde? –

 

2. Somos tão ingênuos:

O desenvolvimento deste pensamento crítico,  que nos direciona a determinados conteúdos,  vem associado ao amadurecimento da capacidade de identificarmos a qualidade de um texto/material em relação a sua relevância e credibilidade. Este amadurecimento por sua vez vem com a prática da própria leitura e do diálogo, seja ele com outras pessoas ou outros autores.

Notadamente quanto menos conhecimento temos mais propensos estamos a crer que tudo aquilo que nos falam representa a verdade. Consequentemente somos menos capazes de emitir opiniões e elaborar ações que geram impacto no meio social ou mesmo individual. Por isso, penso eu, que estes cada vez mais em voga processos seletivos que primam por análises críticas, sujeitos inteirados das situações globais, participação ativa do aluno no processo de aprendizagem entre outros…

 

3. As idéias

O desenvolvimento da leitura crítica, da formulação de conhecimento relevante implica em flexibilizar-se… Flexibilizar-se em relação a novas descobertas e pontos de vistas e ainda no estabelecimento de posturas dialógicas que favorecem a construção de novos conhecimentos.

 

4. A importância do que conhecemos:

Dizer que determinado tipo de tema e produção de conhecimento sobre ele é relevante ou não consiste de uma séria questão que frequentemente descamba para ideia de que tudo que lemos deve ser “intelectualizado”, guardar profundas e complexas conjecturas sócio-políticas e ter desdobramentos sócio filosóficos.

Seria bom que o material ao qual nos debruçamos contribuísse para reflexões mais profundas da vida, entretanto isso não quer dizer que não possamos rir, fazer trocadilhos, ler conteúdos mais leves e divertidos… como a Mafalda.

 

Por fim…

 

5. A quem o conhecimento incomoda:
Tudo aquilo que ouvimos, lemos e conhecemos parte de um conjunto de ideias pré-estabelecidos, de correntes de pensamentos que tem em si um porque e um para que, uma ideologia. Isso não é necessariamente ruim, entretanto exige esforço e perspicácia nossa para que possamos identificá-las e nos posicionar melhor perante aquele conhecimento que está sendo proposto.

Com certeza existem pessoas muito mais gabaritadas do que a simples pessoa que vos escreve … O intuito aqui é apenas pontuar algumas reflexões e perceber como pode ser extremamente prazeroso o processo de conhecimento.

 

Para saber mais:

Mafalda e Quino: http://www.quino.com.ar/

Mafalda no face: https://www.facebook.com/DepositoDeTirinhas?ref=ts&fref=ts

Livro “O desafio do conhecimento”:  http://compare.buscape.com.br/o-desafio-do-conhecimento-pesquisa-qualitativa-em-saude-minayo-maria-c-s-8527101815.html#precos

Paulo Freire: http://www.paulofreire.org.br/asp/Index.asp

 

Da prostituta ao viciado e do agressor ao corrupto… qual o limite da sua atuação profissional?

Quem inspirou este post foi a cara amiga de profissão Fisioterapeuta Thaís Botelho da Silva que mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Cenas do filme Carandiru
O relato dramatizado de um médico que trabalha dentro de um presídio

Em seu Blog Fisio em Terapia Thaís divide conosco o seguinte relato:

“Hoje no trabalho numa conversa informal, veio o assunto atendimento a presidiários internados. Com a maior inocência, falei que eu não tinha problema em atender estes pacientes, que acreditava que era um paciente como outro e que prestaria atendimento conforme a necessidade de saúde. Nesse momento, 8759 pedras levantaram-se contra mim e ouvi diversos comentários infelizes. Coisas do tipo, “eu não atendo presidiário”, “esses pacientes não merecem atendimento diário”, “a Thaís vai evangelizar os pacientes e perdoar todo mundo agora” e mais um monte de tentativas frustradas pra me fazer tentar mudar de ideia.”

Este relato sugere de certa forma uma série de questionamentos de fundo moral, mas que se articulam aos princípios doutrinários do SUS de UNIVERSALIDADE, EQUIDADE, INTEGRALIDADE.

A universalidade diz respeito ao acesso… Garantido como direito do cidadão e dever do Estado. Muito bem… situações como esta vivida por Thaís são extremamente comuns para quem trabalha saúde em contextos de vulnerabilidade, contextos onde as mazelas chocam nossa sensibilidade e retratam “vidas secas” não apenas as de Graciliano Ramos mas secas de saberem-se gente.

Quando supervisora de estágio em APS passei por situação semelhante, entretanto o objeto não era um presidiários mas um usuário de crack e outro agressor de criança. No ímpeto moralista ou temente a ser objeto da agressão do outro, surge a questão: devo atendê-lo, ou melhor, suas atitudes fazem com que MEREÇA ser atendido?

Bem… Perguntas como esta só nos levam a entender que este tipo de situação (pergunta) é resultante da nossa limitação enquanto ser humano de transcender o nosso escudo intelecto-moral muitas vezes construído em moldes tiranos, xenofóbicos e preconceituosos, ou que, embotado por poucas vivências dentro de contextos de miséria, é dominado pelo horror das atitudes/sujeitos à margem da sociedade.

Tudo bem… Não se pode sacrificar nenhum profissional pela ojeriza ao pretenso “malandro”, “safado”, “maconheiro, “vadia”. No meu modo de entender se o profissional não quer ou mesmo não consegue se conceber atendendo alguém com esta história é uma coisa, um direito até, mas seja honesto com este ponto de vista, não justifique esta limitação com uma generalização desumana do outro que provavelmente não teve as mesmas oportunidades que você e que é renegado ao ” tem que morrer mesmo safado”.

Outro problema é achar que fazemos caridade ao atender alguém… erro crasso!

Somos profissionais comprometidos com o outro e faz parte do nosso trabalho a dedicação, o cuidado e a sensibilidade, porém não o juízo de valor. Já está mais que na hora de vermos o outro como sujeito autônomo, crítico, capaz de fazer escolhas e traçar não apenas o rumo do tratamento lado a lado com você, mas também sobre sua própria vida.

Equidade diz respeito a prover atenção/ação/estratégia em saúde coerente com o quadro de desigualdade do nosso país. Grosso modo é dar mais ao que precisa mais e menos ao precisa menos, mas prover a TODOS. Até que ponto nossas limitações em atender a determinadas parcelas da população não contradizem este lógico preceito envolvido, à época de sua elaboração, em um forte sentimento de luta, autonomia e participação popular?

Por fim a Integralidade… Será que estamos prontos a atuar no campo da saúde sem entender esse sujeito, que tanto nos fere a hombridade, com um ser biopsicossocial e que, portanto prevê em nossa atuação a compreensão dos “por quês”, “como”, “ para que”, e “então(s)” aquela pessoa se encontra naquela situação?

Não se trata de vitimizar o culpado, ou ser licencioso com práticas vis como o abuso sexual e a violência, mas sim tirar o profissional da saúde da posição de julgador e convida-lo a participar da vida do homem além de suas amarras moralistas e por vezes intransigentes.

Para finalizar gostaria de terminar com a página do site Pragmatismo Político chamado de: Almeidinha: “Direitos humanos para humanos direitos”

Almeidinha era o sujeito inventado pelos amigos de faculdade para personalizar tudo o que não queríamos nos transformar ao longo dos anos. A projeção era a de um cidadão médio: resmungão em casa, satisfeito com o emprego na “firma” e à espera da aposentadoria para poder tomar banho, colocar pijama às quatro da tarde, assistir ao Datena e reclamar da janta preparada pela esposa. O Almeidinha é aquele sujeito capaz de rir de qualquer piada de português, negro, gay e loira. Que guarda revistas pornográficas no armário, baba nas pernas da vizinha desquitada (é assim que ele fala) mas implica quando a filha coloca um vestido mais curto. Que não perde a chance de dizer o quanto a esposa (ele chama de “patroa”) engordou desde o casamento.

Continue lendo sobre o Almeidinha aqui

 

Thaís Botelho da Silva
Fisioterapeuta na empresa Grupo Hospitalar Conceição – GHC –
Estudou na Instituição de ensino PUCRS