VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (FAMILIAR) E SAÚDE

                                                                                                                                                                                                       Este olhar é de…

Luciana Xavier Senra – Psicóloga e Mestre em Psicologia/UFJF

A violência é um fenômeno que atinge a população mundial com graves prejuízos à saúde e bem-estar de indivíduos, famílias e comunidades. Na modalidade interpessoal, a violência doméstica ou familiar consiste em atos e omissões em detrimento do bem-estar, da integridade física e psicológica, da liberdade, da espiritualidade e do direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família (com ou sem laço consanguíneo) independente do nível cultural, social e econômico (Ministério da Saúde Brasileiro, 2001).

 
Schrader e Sagot (2000) definem o fenômeno como “todo ato ou omissão cometido por um membro da família em uma posição de poder, independentemente de onde ocorra, que prejudique o bem-estar físico ou a integridade psicológica, ou a liberdade e o direito ao desenvolvimento integral de outro membro da família” (p.10). O foco na família pode ser justificado em razão de “doméstico” dar margem para o entendimento de que a violência tenha que ocorrer em um determinado local ou espaço geográfico da residência dos envolvidos.

 
Dessa maneira, mesmo o termo doméstico referindo-se ao contexto das relações familiares e, por isso, envolver quaisquer integrantes da família (crianças, adolescentes, mulheres e idosos – as principais vítimas), a expressão violência doméstica por vezes é utilizada para referir-se especificamente à violência exercida pelo homem contra a mulher. O uso do conceito assim delimitado é verificado mais comumente relacionado aos Estados Unidos, enquanto no Brasil, a violência doméstica tem abrangido mais atos violentos, maus tratos e negligência direcionados especificamente às crianças e adolescentes. Entretanto, essa concepção no Brasil ainda pode ser considerada divergente tendo em vista a implementação de legislações específicas para situações de violência doméstica contra a mulher como é o caso da Lei 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha Stelko-Pereira e Williams (2010).

 
Na tentativa de especificar cada tipologia e contexto de violência interpessoal no ambiente doméstico, sobretudo daquela voltada contra a mulher e/ou que ocorre entre o casal, a Organização Mundial da Saúde-OMS apresenta a violência praticada entre parceiros íntimos (homo ou heterossexuais) ou a violência conjugal, compreendida como “qualquer comportamento que cause dano físico, psicológico ou sexual àqueles que fazem parte da relação” (Krug et al, 2002, p.91).

 
O contexto de violência doméstica, independente de tais divergências, traz para os envolvidos, vítimas diretas e indiretas, prejuízos de diversas proporções, mas é na saúde que os impactos são mais evidentes. Dentre tais impactos, destacam-se: (a) agressões físicas com lesões corporais e traumas no aparelho músculo esquelético decorrentes de tapas, socos, chutes e uso de objetos; (b) abuso psicológico caracterizado por intimidação, abuso de poder numa relação desigual, constante desvalorização e humilhação causando transtornos de humor, de ansiedade, baixa estima por si mesmo, alimentares e do sono; (c) relações sexuais forçadas (abuso) e outras formas de coação sexual que culminam em doenças sexualmente transmissíveis e lesões do aparelho genital; (d) condutas controladoras que incluem isolar uma pessoa de sua família e amigos, monitoramento de seus movimentos e restrição do acesso às informações ou à assistência às necessidades básicas (negligência); (e) abandono; (f) extorsão financeira (contra idosos); e (g) danos ao patrimônio da família.

 
Atualmente, no Brasil, os referidos tipos de impactos são traduzidos pelos dados do Mapa da Violência no país (Waiselfisz, 2012), dentre os quais estão os óbitos por causas externas. Isto é, o estudo revelou, entre outras coisas, que dois terços dos óbitos por causas externas no país se devem a situações de violência coletiva ou doméstica, sendo que as principais vítimas são crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos de idade (53,2%) e mulheres.

 
Diante dessa realidade preocupante, é fundamental que o tema, com seus diversos prejuízos aos indivíduos, famílias e comunidades, seja estudado e abordado de distintas maneiras, seja com foco social, da saúde, jurídico e/ou da educação, e até através de interrelação desses seguimentos acadêmicos e profissionais, pois é sabido que todas as implicações de um ato de violência dentro ou fora do contexto doméstico/familiar colocam os seres humanos em condições de vítimas, autores e/ou testemunhas de tal ato, portanto, não isentos ou alheios a esse grave problema de saúde pública nacional e internacional.

 

Referências

Krug, E.G., Dahlberg, L.L., Mercy, J.A., Zwi, A.B., & Lozano, R. (ed.) (2002). World report on violence and health. Geneva, World Health Organization.
Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. (2001). Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço. Brasília: Ministério da Saúde.
Shrader, E., & Sagot, M. (2000). Domestic violence: women’s way out. Pan American Health Organization. Washinton: States Unites of America.
Stelko-Pereira, A.C.; & Williams, L.A.C. (2010). Reflexões sobre o conceito de violência escolar e a busca por uma definição abrangente. Temas em Psicologia, 18 (1), 45-55.
Waiselfisz, J. J. (2012). Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil. Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos-CEBELA. Disponível em: < http://mapadaviolencia.org.br/pdf2012/MapaViolencia2012_Criancas_e_Adolescentes.pdf&gt; Acesso em 14 de maio de 2012.

 

Luciana Xavier Senra

Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora na linha de pesquisa Processos Psicossociais e Saúde, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-CAPES. Possui graduação em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (2007). Atualmente é membro da Asociación Psicológica Iberoamericana de Clínica y Salud-APICSA e do Núcleo de Estudos em Violência e Ansiedade Social-NEVAS. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social e Saúde Coletiva, atuando principalmente nos seguintes temas: violência doméstica, violência entre parceiros íntimos e bullying.

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3 pensamentos sobre “VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (FAMILIAR) E SAÚDE

  1. MARCO disse:

    Vivemos tempos de violência…as desigualdades sociais se espalham com a frieza do olhar de muitos pseudo-privilegiados nessa sociedade. Esquecemo-nos de que o essencial é o ar que respiramos e o outro a quem amamos, em prol de ter e acumular objetos que exalam o status que muitas vezes atraem atos violento. Se não tenho e quero pratico a violência contra aquele que tem. Recordemos Gandhi, propagador da não-violência com ação efetiva de amar ao outro incondicionalmente.

  2. priknopp disse:

    A violência é uma “epidemia” da sociedade moderna associado, a princípio, a padrões de comportamento individuais mas que representam toda um complexa estrutura de desigualdade (economica. social, acesso a saúde e educação) sendo portanto um tema muito importante nas discussões acadêmicas em articulação com diferentes segmentos da sociedade ‘civil’ (trabalhdores, religiosos, lideranças comunitárias, políticos, sindicalistas, hetero e homossexuais…)

    Ainda bem que nossa história conta com alguns ícones que andaram contra a mare da violência e são inspirações, não é Marco? Muito obrigada pelo comentário e que tenhamos em mente como nossa ação no mundo pode interferir neste aspecto.

    Abraço

  3. […] tema violência e suas implicações sobre a saúde já foi discutido aqui no blog em VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (FAMILIAR) E SAÚDE entretanto ela não se apresenta somente no contexto […]

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